19/10/2017

Gastos de 20 mil, xixi 'controlado' e ajuda de estrelas: como Laís Souza mantém a esperança de voltar a andar

Enquanto as mãos esboçam uma movimentação mínima de ondulação no exercício de remada, seus olhos fecham no esforço para manter aquele “balanço” até que o fisioterapeuta Robson Lopes dê o sinal de descanso. O movimento pode parecer ínfimo para quem passou a infância e boa parte da juventude entre piruetas e saltos na ginástica artística, mas, hoje, cada avanço é uma conquista.


Lais no exercício
Foto: BBCBrasil.com
“Tenho noção do que é o real, mas continuo com meus sonhos, com a minha esperança de correr atrás, de tentar conseguir recuperar um movimento, nem que seja do braço, qualquer coisa”, diz à BBC Brasil.

Laís perdeu todos os movimentos do pescoço para baixo no acidente de 2014 por conta de uma lesão na coluna cervical C3. E, apesar das poucas “certezas” que a medicina traz para o seu caso, ela se mantém firme na esperança de voltar a se mexer.

“Não quero me adaptar à cadeira de rodas de jeito nenhum. Quero fazer o contrário: sair dela.”

Adaptação e gastos

É para isso que Laís vai todos os dias à fisioterapia, até mesmo quando está fora de Ribeirão Preto. E é por isso que a ex-ginasta hoje se desdobra, fazendo eventos e palestras em todo o país, na tentativa de arcar com os altos custos de sua nova realidade, que ultrapassam R$ 20 mil por mês.

Um simples xixi, por exemplo, custa para Laís R$ 3,20 – preço da sonda que ela usa para isso -, o que faz com que ela tente “controlar” suas idas ao banheiro para não que ultrapassem seis por dia.

“É bem caro. Tem desde (gastos com) sonda pra fazer xixi e cocô, os remédios, mais as pessoas que me cuidam – isso é a parte mais cara. Algumas viagens que eu tenho de fazer para os tratamentos, fisioterapia, faculdade…”, diz

“Uso de cinco a seis sondas no dia. Se eu for a um happy hour , por exemplo, eu vou dar PT (perda total, gíria para quando se bebe demais)”, brinca. “Em geral, a cada quatro horas, devo usar uma sonda. Mas fico me policiando e atenta ao momento do xixi, porque você tem de encontrar um banheiro adaptado, um banheiro limpo e não encontra…”

A falta de banheiros adaptados e os altos custos da vida na cadeira de rodas foram algumas dificuldades que Laís Souza encontrou desde que retornou ao Brasil, após ter passado seis meses em um hospital nos Estados Unidos. Foi na volta para casa que ela se deparou com os primeiros obstáculos de sua nova realidade, que iam muito além de calçadas esburacadas e da escassez de rampas.

“Cheguei aqui e eu não entrava em casa. A cadeira não passava”, contou. A ex-ginasta teve de passar um tempo na casa do irmão até conseguir um apartamento adaptado para ela.

Foi preciso pouco tempo, aliás, para Laís perceber que a vida “adaptada” no Brasil para uma pessoa com deficiência custaria bem caro – para bancar tudo, precisou contar com a ajuda de bastante gente.

“É difícil (conseguir pagar tudo). Mas tenho vários anjos na minha vida. Hoje, tenho um patrocinador, que me ajuda bastante. Tenho também uma ajuda do governo, que uso toda com remédios. E tem o (jogador de futebol) Neymar, que me ajuda com minha moradia em São Paulo, a clínica a que vou me ajuda também. O cavaleiro Doda Miranda me ajudou muito no início também.”

A pensão por invalidez que ela recebe do governo federal é de pouco mais de R$ 4 mil, que gasta com os pelo menos cinco remédios que toma por dia. Os gastos estão por toda parte: desde os cuidadores, que a ajudam a fazer tudo todos os dias (são dois), a faculdade, as despesas com tratamento e fisioterapia, até a própria cadeira que a leva e traz de todos os lugares.

“Só a cadeira custou R$ 23 mil. A roda dela é como se fosse uma roda de carro, é bem cara. Quando fura, tento trocar a câmara de dentro, mas, se machucar o pneu, tem de trocar, igual a de um carro.”

Tudo isso não é luxo para Laís – é o básico que ela precisa para continuar vivendo. “Minha deficiência é muito grande. Se for em qualquer carro, eu não consigo ir, se for uma calçada com buraco gigante, a gente tem que fazer alguma coisa para driblar o buraco. Então, a adaptação continua bem difícil.”

Recuperação

A “adaptação” de Laís à nova vida começou ainda quando acordou no hospital com a notícia de que “dificilmente conseguiria respirar sozinha novamente”, conforme um dos médicos disse à sua mãe. Ela conseguiu – teve de reaprender a fazer isso, assim como a falar, depois de ter passado meses em silêncio.

Hoje, ela tem uma dicção perfeita, mantém o mesmo otimismo de antes – mesmo admitindo ter dias ruins de vez em quando – e usa a cabeça para apontar as coisas que quer ou precisa. Quando um fio do cabelo insistiu em repousar no seu olho, ela fez sinais com o pescoço e pediu para um de seus ajudantes, Willian Campi, retirá-lo. Quando teve sede, apontou para a salinha do filtro e disse: “Vamos tomar água?”.

A vida de Laís agora é assim: sempre pedindo coisas para alguém. Isso já a incomodou muito, assim como as despesas a pagar às vezes pesam, e o desânimo por não poder sequer mover sua própria cadeira toma conta dela.

“Não gosto de ficar pedindo as coisas sempre. Quando tinha de comer, eu pedia para alguém. Aí, nada vinha do jeito que queria, porque era uma outra pessoa que estava fazendo. Mas, agora, já aprendi o jeito de falar, o jeito de mostrar, de fazer”, diz.

“Fui de muito movimento extremo para nada de movimento. Esse tempo de adaptação, de hospital, foi muito difícil, mas até hoje continua. Não conseguia entender. Porque não me sobrou nem um dedo (que se movimenta). Isso não entrava na minha cabeça. Até que eu fui entendendo. Parei de me perguntar o porquê e fui viver.”

Ainda assim, três anos após o acidente, Laís se vê como uma mulher de sorte. “Recebo muitas mensagens de gente em situação muito pior que a minha. Quero fazer de tudo pra ajudar essas pessoas. Só que, por mais que eu tenha a estrutura que tenho hoje, ainda me falta. Imagina pra eles.”

Evolução

Aos poucos, Laís tem conseguido evoluções na fisioterapia. Durante os exercícios, dá para ver o cansaço em seu olhar, mas ela não para. Neste ano, a ex-ginasta conseguiu pela primeira vez ficar sentada no chão com o apoio das próprias mãos. Ficar em pé com o auxílio de um equipamento também foi mais uma conquista recente.

Com a ajuda dos fisioterapeutas, ela é erguida do sofá e se mantém ereta para o próximo exercício: algumas cabeçadas de um lado para o outro na bola que despertam a sensação de estar livre da cadeira por alguns segundos. Laís chegou até a “dar uma volta” de pé pela sala sendo conduzida por Robson.

“Fico muito feliz quando consigo alguma coisa na fisioterapia. Só que sou muito exigente. Enquanto não tiver um movimento real, não vou ficar satisfeita. Acho que talvez seja por isso que não paro. Venho tentando me esforçar, treinar para caramba pra sair (da cadeira). Porque, depois da primeira vez que eu mexer essa mão, vou fazer várias coisas”, diz, soltando um riso de ansiedade por esse momento.

“Aliás, agora mesmo, a gente está aqui conversando, e eu estou achando que minha mão está mexendo. Ela não está. Mas a sensação é de que está.”

O otimismo de Laís, por enquanto, vem menos de um prognóstico concreto e mais da sua determinação em mudar sua realidade. Ela vai ao médico três vezes ao ano e acompanha constantemente os avanços da medicina para reverter quadros como o dela, mas, nas atitudes mais simples, mantém seu pensamento em colocar em prática aquilo que já está gravado em uma tatuagem no seu braço: levantar da cadeira.

“Primeiro, acordo, e aí tento mexer meu braço. Ele não mexe. Mas aí coloco uma música e já começo o dia diferente. Já vou deixar um chinelinho do lado da cama para quando eu levantar.”

Laís começa a sessão de fisioterapia com Robson Lopes; de pé, Willian, um de seus cuidadores
Foto: BBCBrasil.com


Laís fica de pé com ajuda de aparelho
Foto: BBCBrasil.com

A tatuagem de Laís Souza com uma pessoa levantando da cadeira de rodas
Fonte: Terra

Fonte: Ser Lesado
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