09/10/2014

Deficientes visuais testam urnas de voto equipadas com fone de ouvido

Uso do recurso auditivo permite que o eleitor confira informações, inclusive, os números que acabou de digitar


Daniela Jacinto




Com perda total da visão, Sandro Gonçalves de Carvalho, 47 anos, não vai mais precisar da ajuda do pai para votar em seus candidatos nestas eleições. Isso era necessário porque, apesar dos teclados das urnas eletrônicas tenham o braile, não era possível saber que número tinha sido digitado, para verificar se houve algum engano. Agora, com o recurso do fone de ouvido, o deficiente visual é informado para que cargo está votando e os números digitados. Se tiver errado, basta corrigir e tentar novamente. Sem essa tecnologia, muitos votos acabavam sendo anulados porque as pessoas com limitações visuais, quando digitavam errado, ficavam sem saber que tinham cometido um engano e acabavam por confirmar o voto. 

Na quinta-feira passada, a Justiça Eleitoral realizou, na sede da Associação Sorocabana de Atividades para Deficientes Visuais (Asac), um treinamento para que os eleitores com deficiência visual pudessem saber como a urna irá funcionar. Entre os presentes estava Sandro. Conforme ele, a única dificuldade que terá, agora, vai ser decorar os números de seus candidatos, pois nenhum distribui panfletos de divulgação em braile. Sandro talvez ainda precise do pai apenas para lhe falar os números. "Esse seria o próximo passo para ficarmos mais independentes." De acordo com Sandro, também a sessão eleitoral deveria ter acessibilidade melhor. "Ainda precisaria de ajuda para chegar ao local, pois apesar da escola ser a mesma, constantemente mudam a sala de votação", completa. 

Um dos deficientes visuais, que preferiu não ser identificado, tem uma máquina portátil que pode ser usada para passar para o papel o número de seus candidatos, em braile. Ele consegue ser mais independente, porém sabe que nem todos têm o recurso. 

Portador de retinose pigmentar, Roque Batista Martins, 48 anos, veio de Cesário Lange para conhecer a novidade. "Agora, com essa inovação, não vou ter mais como errar. As teclas são grandes e em braile, e tendo o fone melhora bastante." Roque contou que vai sozinho votar, mas que precisa do auxílio do mesário. "Ele coloca minha mão perto da urna e avisa que ela está na minha frente. Assim que eu consigo votar." 

Celular 

Jovens e modernos, Edson Miranda, 18, e a namorada Janaína Reis de Almeida, 29 anos, foram conferir o funcionamento da urna, agora com o fone de ouvido, e contaram que usam o celular para saber mais sobre seus candidatos. Conforme Janaína, a Apple tem uma tecnologia que emite som para avisar cada aplicativo que está sendo acessado e também é possível escutar os textos. 

Edson explicou que tem retinopatia da prematuridade e por isso não enxerga desde que nasceu. "Nasci prematuro, de 6 meses e meio, e tive descolamento da retina." Mesmo sem poder ver, ele não é alheio às tecnologias e como qualquer outro jovem, acessa a internet. Também Janaína é conectada. Ela, que tem o nervo ótico atrofiado desde o nascimento, afirmou que o sistema de seu celular é bem útil para quem não enxerga. Com esse aplicativo, os dois conseguem entrar nas páginas dos candidatos, escutar as propostas e saber das notícias sobre política. 

Direito à cidadania 

Conforme Sandra Fogaça da Silva, auxiliar da Justiça Eleitoral na Zona 137 de Sorocaba, que atende a região central e a zona sul da cidade, a Justiça Eleitoral se preocupa muito com a acessibilidade. 

A primeira medida foi solucionar a questão da locomoção, com a criação de sessões especiais, que são apropriadas para as pessoas com deficiências. São locais em que não é preciso subir a escada e que a porta seja mais larga, para facilitar a entrada do cadeirante, entre outras adaptações. "Na Zona 137 temos uma sala com atendimento voltado também aos surdos, com um colaborador que sabe a linguagem dos sinais. Futuramente todas as escolas terão, mas quando sabemos que naquela escola tem uma pessoa com determinada deficiência, aí temos de providenciar", afirma. 

Sandra esclareceu que as melhorias estão sendo feitas ao longo dos anos devido às sugestões dos próprios eleitores e observações dos mesários. "As pessoas dão sugestões, também o mesário coloca em ata quando alguém teve dificuldade, e dessa forma vão se fazendo estudos e aprimorando." 

De acordo com Laurinda Ana de Negreiros, chefe de cartório da Zona 137, todas as sessões especiais têm fone de ouvido, mas qualquer pessoa com problema visual, mesmo que sua deficiência não esteja cadastrada, pode solicitar para o mesário o fone de ouvido. "Não temos para todas as salas, mas todos os locais terão fone de ouvido", assegura. 

Sorocaba tem hoje 981 eleitores com algum tipo de deficiência, sendo 104 deles deficientes visuais.

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