02/12/2013

Atletas com deficiência dão exemplo de luta no Pará

Em contato com o esporte, os jovens, principalmente, passam a interagir mais, se tornam mais dinâmicos.

O esporte adaptado para pessoas com deficiência surgiu no início do século XX, em Berlim, na Alemanha. Os primeiros a competir dessa forma foram os deficientes auditivos, ainda em 1924. Em seguida, os deficientes visuais se lançaram ao atletismo e à natação. A partir daí, as modalidades não pararam de crescer. Desde 1960 ocorrem os Jogos Paraolímpicos, sempre alguns dias após as Olimpíadas, e sempre na mesma sede dos jogos internacionais.

Segundo a Associação Desportiva para Deficientes (ADD), no Brasil, as maiores práticas hoje estão no atletismo, basquete, futebol, goalball, hipismo, judô, natação, tênis, tênis de mesa e voleibol. Todos eles adaptados a diversas deficiências, físicas ou mentais.

“Os benefícios [da prática esportiva] são imensuráveis. Vão desde a autoconfiança que os praticantes desenvolvem até a superação de limites e a expansão do convívio social. É uma conquista enorme para as pessoas com deficiência”, atesta Kátia Tadaiesky, técnica em Belém do time de goalball - uma espécie de futebol para deficientes visuais.

As possibilidades de superação e a condição afirmativa do esporte na vida de pessoas com deficiência é o tema desta nova matéria da segunda etapa da série especial ‘Agente do Bem’ - que a campanha Orgulho de Ser do Pará vem veiculando no jornal DIÁRIO DO PARÁ e na RBATV, citando exemplos de urbanidade e ações positivas de personagens inspiradores e histórias e atitudes de agentes que promovem a inclusão e acesso a direitos e à cidadania.

Kátia Tadaiesky enfatiza: em contato com o esporte, os jovens, principalmente, passam a interagir mais, se tornam mais dinâmicos e cheios de sonhos e planos. “Eles se tornam mais participativos inclusive na escola. Um dos exemplos é um atleta que ingressou este ano no curso de Engenharia Mecânica da UFPA”, explica a técnica do time de goalball de Belém.

Desde 2006, Kátia ajuda a organizar a equipe, formada por jovens de 14 a 25 anos - e que hoje já contabilizada 18 atletas. Professora de educação física da Escola Estadual Álvares de Azevedo, voltada a alunos com deficiência visual, Kátia sempre buscou utilizar recursos lúdicos para desenvolver as atividades da disciplina. “Unimos dança, brincadeiras, esportes, tudo o que auxilie na reeducação psicomotora dos jovens”, justifica.
E a equipe surgiu justamente através de uma das iniciativas de Kátia na escola. Observando o talento de vários alunos, ela formou um time e, em pouco tempo, conseguiu resultados expressivos com ele. “Ganhamos muitos jogos, depois campeonatos. Nossos atletas foram reconhecidos e assim ampliamos nossa atuação”, diz a especialista em educação física adaptada.

Hoje, vários deles atuam na Seleção Brasileira de Goalball e por isso viajam com frequência para outros estados e até países. “Cada atleta que viaja tira seu passaporte, conhece outra realidade, se torna mais forte, mais maduro. Faz muito bem para eles essa sensação de liberdade, de saber que eles são capazes”, conta orgulhosa.

Setembro marcou o primeiro voo de José Márcio Silva, de 17 anos. Márcio participou dos Jogos Pan-Americanos para Jovens, na Argentina. Natural do município de Santa Bárbara, o atleta é de uma família humilde e antes nunca havia saído do Pará. O integrante da Seleção Brasileira de Goalball fez mais um gol recentemente. Esta semana, acaba de chegar de outra viagem, marcada por um convite formal para jogar profissionalmente em São Paulo.

“Todos os sorrisos deles se convertem num sentimento de satisfação profissional e pessoal. É a sensação de dever cumprido. Estamos num momento de inclusão social e com o meu trabalho sinto que colaboro com essa mudança de mentalidade”, comemora Kátia Tadaiesky.

Apesar do sucesso da equipe de goalball, Kátia se esforça para garantir a qualidade de treinos e a participação dos alunos. “Falta mais oportunidade para qualificarmos nosso treino. Material humano já temos. Precisamos apenas investir nele. Muitos jovens ainda desistem porque não têm condições de se deslocar até os treinos ou de manter uma alimentação que o ritmo esportivo exige”, desabafa. Por isso, a professora se mobiliza também fora das quadras para oferecer almoço e até cestas básicas aos mais humildes. “O esporte muda a vida de todas as pessoas, principalmente daquelas com deficiência”, assevera.

Uma prova da mudança que a atividade física promove é também Bruno Palheta. Com apenas 22 anos, mas muitas corridas já guardadas na sua vida, ele se tornou referência no atletismo paraolímpico paraense. Bruno nasceu cego e começou a correr aos 13 anos, incentivado por uma professora. No início era em pistas, mas há dois anos começou a participar de provas de rua.

Na última corrida de São Silvestre, realizada em 31 de dezembro, em São Paulo, ele venceu a categoria de deficientes visuais, junto com o seu treinador e guia, Raimundo Vales. Bruno disputou com outros 39 atletas. Ao todo, eram 110 participantes com algum tipo de deficiência. Já na 17ª edição da Meia Maratona Internacional do Rio de Janeiro, ele alcançou o 6º lugar.

Com os ótimos índices nas competições, Bruno tem o apoio do governo do Pará para realizar as viagens. Mesmo assim, ele e Raimundo também acham que faltam estímulos para atletas deficientes no país.

“É preciso incentivar os deficientes. Em diversas provas, os vencedores hoje continuam a ganhar apenas uma medalha. Não há prêmio, enquanto os atletas normais recebem valores altos. Além disso, subir ao pódio também significa muito. Todos os vencedores devem ter esse direito”, opina o guia.

Agora, depois de melhorar ainda mais seus índices, Bruno pretende se qualificar para a Paraolimpíada de 2016, no Rio de Janeiro. “Trazer uma medalha para o Pará continua sendo meu maior sonho e minha força para seguir nos treinos sempre”, sorri o atleta.

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