10/07/2014

Três anos após acidente, ex-BBB narra conquistas no esporte e criação de ONG

Jairo Marques, de São Paulo

Para mim, um cadeirante era alguém frágil. Quando me tornei um, aquilo não fazia mais sentido”. Foto: Eduardo Knapp/Folhapress

Os projetos e planos que o paradesportista Fernando Fernandes, 32, traçou há três anos, assim que se tornou cadeirante em um acidente de carro em que dirigia em alta velocidade, tornaram-se concretos e foram além. Ele deixou a fama de “bad boy” para se tornar “exemplo” para muitas pessoas e teve conquistas diversas tanto no esporte como na vida. Fernandes conta como sua mente se fortaleceu diante da nova realidade com deficiência, fala sobre medos, desafios e futuro.

Já me incomodou bastante o fato de alguns acharem que me transformei em outra pessoa após o acidente. Mas admito que houve um tempo em que não conseguia gerar algo bom, positivo para quem não estivesse perto de mim.

Fazia várias coisas boas, mas só para os mais próximos. O assédio começou de forma muito repentina após o programa [2ª edição do "Big Brother Brasil"], que me deu um sucesso sem sentido, fútil.

Naquele momento, só queriam saber o que o modelo bonitão estava fazendo nas baladas, quem estava namorando e eu, às vezes, era agressivo. Não sabia administrar.

Após o acidente, consegui voltar para o meu mundo. Um mundo de felicidade, de esportes, de poder ensinar algo positivo para muitas pessoas.

Deixei de ser modelo, porque não tinha mais o padrão imposto, e fui para a canoagem, em que tive o prazer de ser quatro vezes campeão mundial. No esporte, consegui mudar total a minha imagem e influenciar positivamente os outros.

‘FUI ALÉM’

Para mim, um cadeirante era alguém frágil, depende. Quando me tornei um, aquilo não fazia mais sentido. Tocar uma cadeira de rodas é muito difícil e pessoas com deficiência enfrentam dores agudas e ainda têm de lidar com um mundo sem acessibilidade.

Então, me tornei alguém muito mais forte do que antes, porque segui em frente mesmo com os problemas e vencendo as dores.

A minha reinserção na sociedade tinha de ser vista com respeito para que eu pudesse somar na vida dos outros.

Acho ótimo que me vejam com um exemplo do bem. Não estou me esforçando para isso. É natural e vou continuar fazendo e curtindo.

Nesses três anos após a primeira entrevista que dei à Folha, tudo que planejei eu consegui alcançar e fui além.

Sonhei ter um quadro na TV e consegui ["Desafio sem Limites", no "Esporte Espetacular", da Globo]; quis ser campeão mundial em algum esporte e fui; quis transmitir algo bom para as pessoas e está acontecendo com o instituto.

Refleti sobre isso quando tive um problema grave na pele, no final do ano passado, e fiquei dois meses sem poder me levantar da cama, de bruços, para que a ferida [úlcera de pressão] fechasse.

Foi o pior momento da minha vida, pior do que o fato de ter ficado cadeirante porque fiquei totalmente longe de tudo o que amava fazer.

MONSTRO X CRIANÇA

O que me incomoda hoje por ter uma deficiência não é pensar que, talvez, jamais voltarei a andar. É o medo das consequências que a minha lesão medular pode gerar.
Fiquei frágil, confuso e apavorado quando estava de cama.

O fato de do tronco para cima eu ser um mostro, forte, e do tronco para baixo ser uma criancinha que precisava passar Hipoglós [lesados medulares podem perder sensibilidade e precisam ter cuidados intensos com a área afetada] mexeu comigo.

Acordava mal, ficava deprimido por 30 segundos e depois eu me rastejava até os aparelhos de musculação –porque eu não podia sentar– para não ficar parado.

Mas isso tudo me fez descobrir que ganhei um poder em minha mente muito grande com a pancada que levei da vida. Antes do acidente, eu era muito forte, mas acordava emburrado, não conseguia ter foco para uma carreira de atleta profissional.

Quando o meu corpo fraquejava a mente não levava para a frente, hoje é o contrário. Quando meu corpo reclama, minha mente empurra.

Hoje sou sereno e positivo e vou continuar tentando inspirar as pessoas, que me mandam várias mensagens de incentivo e dizem que tiveram a vida mudada porque foram influenciadas por mim.

Em 2016, quero tentar o ouro na Paraolimpíada do Rio, que não será apenas para minha satisfação, mas que pode ter impacto no sucesso do instituto e pode motivar um monte de gente.

Para mim, um cadeirante era alguém frágil. Quando me tornei um, aquilo não fazia mais sentido. Foto: Eduardo Knapp/Folhapress

O que me incomoda hoje por ter uma deficiência não é pensar que, talvez, jamais voltarei a andar. É o medo das consequências que a minha lesão medular pode gerar. Foto: Moacyr Lopes Junior/Folhapress


Fonte: Folha de São Paulo e Blog Deficiente Ciente
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