17/07/2014

Surdos fazem campanha por direito à acessibilidade em autoescolas

Em busca de vencer mais um obstáculo, um grupo de deficientes auditivos de Sorocaba (SP) deram início a uma campanha que tomou proporções nacionais. Os surdos querem que o Departamento Estadual de Trânsito (Detran) forneçam condições para que a Carteira Nacional de Habilitação (CNH) não seja apenas um sonho. Pela avaliação de Alexandre Henrique Elias, que é professor pós-graduado em Língua Brasileira de Sinais (Libras) e membro da Integra – que há mais de 20 anos atua com os surdos em Sorocaba – mais de 20 pessoas do município tentaram tirar a CNH. “Estimamos que 80% dos que tentam desistem por não conseguirem completar o processo de habilitação por falta de acessibilidade”, destaca.

“Me sinto um palhaço. Se meus irmãos podem conseguir, por qual razão eu não posso?”, questiona o assistente de logística Jonas Gonçalves Maciel, de 22 anos. Há dois anos ele luta para concluir o processo de habilitação, mas sempre é impedido pelo mesmo obstáculo: a falta de um intérprete de libras durante a prova teórica do Detran, que é realizada antes da autorização para as aulas práticas de direção ser emitida.

A libras é considerada como a segunda língua oficial do Brasil. Como qualquer idioma, a libras possui uma gramática própria, que vai além da gesticulação. “É como quando aprendemos inglês, conhecemos as palavras, mas sem a compreensão da aplicação destas palavras não é possível entender o idioma”, explica o professor Alexandre. É por esta razão que, apesar de serem alfabetizados, a língua portuguesa não pode ser compreendida completamente pelo surdo, sem a interpretação em libras.

Jonas já pagou quatro vezes a habilitação 
e afirma que não vai desistir 
(Foto: Adriane Souza/G1)
A cada tentativa, os deficientes auditivos pagam o valor integral do processo de habilitação. Ou seja, no caso de Cassio que há dois anos se prepara para enfrentar a quinta tentativa, o valor gasto é superior a R$ 7 mil. Sua mãe, a diarista Maria Gonçalves Santos Maciel, de 53 anos, conta que dói ver a tristeza do filho. “Quando fazemos a inscrição e o pagamento, não nos avisam que na prova não haverá intérprete e que não podemos levar um particular, isso é muito revoltante”, destaca.

E a mesma revolta é compartilhada pela funcionária pública Claudete Oliveira de Melo, 55 anos, que testemunhou as inúmeras tentativas do filho em se habilitar durante cinco anos. “Hoje meu filho tem 30 anos, é oficial mecânico, e desistiu de tirar a CNH de tanto ser reprovado na prova teórica”, conta. Para ela, a pior parte é ver a sensação de fracasso no rosto do filho. “Como mãe dói ver a tristeza de um filho, de ver que nenhum deles recebe assistência para vencer este obstáculo.”

O diretor da Associação das Auto Escolas de Sorocaba, Roberto Alarcon, confirma que no ato da matrícula, os deficientes auditivos não são informados da falta de intérprete na prova. “Não estamos enganando o candidato, a ideia é não desestimular o deficiente auditivo a tirar a CNH, que é algo que todo mundo quer. Temos que mostrar o lado bom e não enchê-los de problemas”, diz. Roberto explica que o Detran não permite intérpretes particulares nas provas, para evitar que os alunos colem. “Existem planos para que haja um intérprete oficial durante as provas, mas não há prazo para esta alteração”.

Enquanto isso, o problema continua e para o advogado Alexandre Franco de Camargo, responsável pela Comissão dos Direitos dos Deficientes da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de Sorocaba, a situação é inaceitável. “Diretrizes orçamentárias são destinadas para garantir acessibilidades a todos pelo governo, então a pergunta é: para onde está indo todo este investimento?”, questiona o advogado com base na Lei no 7.853, de 24 de outubro de 1989, sobre a Política Nacional para a Integração da Pessoa Portadora de Deficiência.



Diretor da Associação das Auto Escolas fala 
de acessibilidade (Foto: Adriane Souza/G1)
"No Brasil estuda-se a língua estrangeira, mas não uma língua que é nossa, que é o segundo idioma oficial. Olha o absurdo em que este país chega”, complementa, explicando que o Detran deveria ter um intérprete oficial e que todas as autoescolas deveriam ser preparadas para receber todos os tipos de deficientes. Alexandre orienta os que se sentirem lesados a procurarem um advogado para buscar orientação.

Na internet a campanha para que o Detran disponibilize intérpretes está ganhando força. Dezenas de pessoas compartilharam fotos segurando cartazes com a frase ‘Detran sem livras= surdos sem acessibilidade’. “É uma vergonha esse país não ter acessibilidade nenhuma, ou cada vez menos, para os que precisam de uma atenção maior”, diz o músico Raphael Mena, que também compartilhou sua foto com o cartaz.

Músico adere a campanha liderada por professor
de Libras (Foto: Reprodução/Facebook)


A campanha é liderada pelo professor Alexandre Henrique Elias, que é pedagogo pós-graduado em Educação Especial, em Libras e Educação de Surdos, além, de intérprete e coordenador do curso de Libras na instituição Integra – Surdos e mestre de Comunicação e Cultura. “Estamos muito felizes com a adesão das pessoas. São milhares de mensagem que chegaram de todas as partes do país, isso mostra que o que estamos fazendo em Sorocaba reflete o problema dos surdos de um país inteiro, que luta pela liberdade, mas que continuam dependentes”, conclui.

Por meio de nota, o Detran de São Paulo explica que 53 unidades de atendimento no Estado aplicam prova teórica de forma eletrônica, ou seja, no computador. “Gradativamente, todas as unidades passarão a contar com a prova eletrônica, em substituição ao caderno de questões e gabarito”, destaca a nota. O Detran afirma que em Sorocaba a prova é aplicada de forma impressa, mas que há um teste adaptado para candidatos com deficiência auditiva, aplicado na Escola Pública de Trânsito do Departamento, com o acompanhamento de um servidor habilitado na Língua Brasileira de Sinais.


Fonte: G1
Proxima Anterior Inicio

0 comentários:

Postar um comentário

Seu Comentário é muito importante para nós.