As Vozes das Mulheres Surdas

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Segundo pesquisa realizada pelo Instituto Locomotiva, a deficiência auditiva atinge pessoas de todas as idades, sendo que 9% já nascem com a deficiência e 91% adquirem ao longo da vida. Desse grupo, 46% são mulheres surdas ou deficientes auditivas acima de 18 anos.

Você deve imaginar que essa comunidade enfrenta dificuldades na comunicação até hoje, mas acreditem, já foi pior. Em 1880, no Congresso de Milão, foi proibido o uso das Línguas de Sinais na educação dos surdos. Essa barreira não fez com que eles deixassem de se comunicar por sinais, mas atrasou a difusão da língua no país. Além disso, por um bom tempo, essas pessoas tiveram que se adaptar com as línguas orais, tanto na educação quanto em seus relacionamentos. No Brasil, a Libras passou a ser reconhecida como uma língua apenas em 2002, depois de muitos anos de luta. Ainda assim, há uma grande falta de acessibilidade para pessoas surdas e deficientes auditivas tanto nos meios virtuais como nos físicos. 

Mulheres surdas e a luta pelo lugar de fala 

Mantendo essas informações em mente, agora vamos trazer nossa lupa para elas. Como herança do patriarcado, a fala feminina muitas vezes não é reconhecida da mesma forma que a de um homem. Tão pouco é o mesmo respeito dentro de alguns ambientes de trabalho ou lares. Mulheres surdas enfrentam ainda mais dificuldade para quebrar o silêncio e serem ouvidas. Estudos revelam que possuem 1,5 vez mais chances de serem vítimas de assédio sexual, absuso psicológico e físico, do que as ouvintes. 

Uma vez vítimas de abuso, também encontram barreiras para denunciar. Segundo a página da Câmara Paulista para Inclusão da Pessoa com Deficiência, há inúmeros registros de queixas da falta de acessibilidade em Libras na Delegacia da Mulher, o que torna mais difícil a denúncia em casos de violência doméstica e outras formas de agressão. Muitas vezes a mulher surda é comparada a mulheres deficientes em um caráter macro. Porém, quando isso acontece, está também comparando-as às ouvintes, o que discrimina sua língua e cultura. Diferenciá-las é importante, pois a mulher surda  que utiliza essa língua deve ter seu direito de comunicação respeitado e precisa receber as informações da maneira mais adequada para ela.

Pensando nessa problemática, foi realizada uma pesquisa buscando reunir e explorar mais a fundo esse cenário, além da necessidade de conscientização. Os dados acenderam o alerta para o fato de que muitas vezes os atendimentos nesses estabelecimentos acontecem por intérpretes de Libras em níveis básicos, quando não apenas por sinais caseiros e mímicas. Como essas mulheres se sentem ao denunciar seus agressores e não conseguirem ser propriamente compreendidas e acolhidas?

Mesmo diante desse cenário triste, atualmente existem grupos feministas de apoio às mulheres surdas, para incentivá-las a escreverem suas próprias histórias e serem ouvidas. Isso se dá por meio de manifestações culturais, como na literatura, através de narrativas autobiográficas, performances poéticas em língua de sinais, escritas sobre si e performances em slam. Alguns exemplos de livros são: Bela do Silêncio, de Brenda Costa e Ser Surda, de Sílvia Andreis-Witkoski e Rosani Suzin Santos. Você pode encontrar outras referências no artigo “Eu sou surda, tenho minha voz: leituras sobre autoria feminina surda” publicado pela Revista Criação & Crítica, que nasceu da vontade de expressar a experiência dessas pessoas que não se associam somente ao corpo feminino, mas a um corpo que “foi objeto de violências e silenciamento”.

Para enriquecer a reflexão, convidamos você a ler o poema de Catharine Moreira, mulher surda e embaixadora da Hand Talk, que reflete a discussão realizada.

SOMOS INVISÍVEIS

O vento aqui bate forte 

Bate onda, bate mar, esparrama em bolhas… Bate forte… 

Mas sem barulho…

Força silenciosa.

Olho só é olho se for transparente 

Consegue ver?! 

o pensamento se prende …..no que é mais aparente 

É na voz que se eleva 

É no ouvido que se sente! 

O poder da orelha depende…

Olho só é olho se conseguir ver ……

realmente… 

cultura, comunidade, surdez, deficiente… 

Não aprende a língua 

A se comunicar não aprende 

Não aprende a ler 

Expressão, lábios… rosto… não aprende 

Sorriso 

Triste 

Grito 

Amor 

OLHA PRA MIM! 

Eu não sou uma piada,

Minha língua não é uma piada, 

O mundo não é perfeito, 

Todo humano tem defeito. 

A cultura da ignorância 

em prol de uma felicidade rasa e paz de espírito 

dos problemas fogem 

dos defeitos fogem 

da verdade fogem! 

Abre logo esse olho! 

Que do vazio eu grito… silencioso.

Vejo Lives sobre mulheres, 

e a violência, nudez, e a violência, 

olho roxo, e a violência, sangue,

e a violência, morte, e a violência, 

falta de comunicação, e a violência! 

Liga 180!!! 

Mas, eu sou surda… e a violência 

liga e fala! Central de Libras! Ufa 

14 pessoas na linha como fila de espera para ser atendida…

O tempo era 2002, não tínhamos nem leis 

Intérprete era luxo maior do que hoje…

O tempo era AGORA aulas online sem acessibilidade, 

Abre esse olho bota legenda 

Nós fomos ignorados, prejudicados e excluídos por tanto tempo. 

Meu direito humano, e cidadão… por tanto tempo 

Somos invisíveis em plena luz do dia! 

Brincadeira de mal gosto 

rejeição 

surdo-muda 

erros continuam agora como há 50 anos atrás. 

o que realmente enxerga é o coração  

O coração aqui bate forte! 

Bate raiz infinita 

Bate cultura e força 

Bate língua tão rica em conhecimentos 

TUM TUM TUM TUM (coração) 

BAAAAAAAAATE!!!  

Fonte: Blog Handtalk

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