Dança para cadeirantes: 7 lições do coreógrafo Wesley Messias

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Wesley Messias é professor e coreógrafo e tem experiência com dança para cadeirantes (Foto: Jaqueline Lisboa para o portal Metrópoles)

Na semana passada, o professor e coreógrafo Wesley Messias esteve numa live comigo, no Instagram, para conversar sobre dança para cadeirantes.

O que eu não podia imaginar é que o bate-papo iria muito além e renderia considerações instigantes sobre liberdade de escolha, discriminação e muito mais.

Vamos conferir essas falas e aprender com elas?

O blog Cadeira Voadora tem por missão oferecer aos cadeirantes, principalmente, e às pessoas com deficiência, de modo geral, instrumentos para que alcancem independência e autonomia. Por isso, considero que a presença de Wesley conosco foi muito feliz, trazendo elementos importantes para refletir – e agir!

Quem é Wesley Messias

Nosso entrevistado tem a dança no sangue, cresceu na cultura artística e começou muito cedo: com 19 anos já ganhava seu primeiro prêmio como coreógrafo. Ele, que dedicou metade da vida a ensinar as pessoas a se expressarem através do corpo, também tem experiência como professor do grupo Street Cadeirante. É com ele que tenho aprendido a dançar, aos sábados, on-line.

Dá treinamento para bailarinos profissionais e cantores, tanto famosos, quanto em início de carreira. E sempre trabalhou com crianças com deficiência.

Sobre o impacto das aulas que tive, posso dizer que, aprendendo movimentos da dança de rua, identifico e expresso sentimentos que nunca tinha identificado em mim. Os movimentos me trouxeram memórias e talvez a oportunidade de vivenciar algo que tem sido vetado aos cadeirantes, por falta da acessibilidade: a espontaneidade e a força que está nas ruas.

A seguir, destaco 6 reflexões importantes feitas por Wesley, que costurei a partir de diversas falas ao longo do vídeo, e às vezes resumi, para agrupar. Então, as ideias podem ser creditadas a ele, mas as costuras são minhas, caso seja preciso assumir responsabilidade por alguma frase que não tenha expressado exatamente o que ele quis dizer, ok?

1. As pessoas são livres

Todo mundo tem que dançar, se divertir, ficar à vontade. Todo mundo é livre pra ser quem é, para fazer o que quer, se aceitar como é. É preciso tirar da nossa cabeça o padrão.

Minha base é com danças urbanas, mas estudei teatro musical, trabalhei com corais, fui pra Broadway estudar. Quando falo de dança, não falo de hip hop, balé, contemporâneo ou jazz, falo de se expressar. São só jeitos de se expressar. É se perceber.

2. Experimente a autenticidade

Para ele, a importância da dança na sua vida e de seus alunos pode ser resumida em uma sentença. “Dance, conte uma história sem dizer uma palavra e no final escute quantas almas escutaram a sua prece. Essa é minha frase pra quem se movimenta, canta, desenha. O que eu digo e insisto para as pessoas hoje é: faça a sua arte. [Depoimento para o portal Metrópoles]

Esta é a minha frase para a vida. Dance com uma energia tão verdadeira, tão autêntica e observe quantas pessoas se conectaram com você. Conte uma história inteira da sua vida simplesmente com movimentos, sem precisar falar alguma coisa.

A gente fala demais na vida, fala de teorias… E com seu movimento, será que você consegue conectar as pessoas só com a energia do seu corpo?

3. Perceba o lugar em que você se coloca

Muitas pessoas se bloqueiam e falam que não vão fazer dança porque estão mais velhas, porque são cadeirantes, porque o namorado não gosta ou porque se sentem ridículas.

Mas a pessoa não é ridícula, ela é que está se colocando neste lugar. Quando a pessoa se ama e se aceita, a pessoa se olha no espelho e diz como é maravilhosa, que é assim que vai estar até o final e quem sabe até voltar igual, tudo à volta dela flui. Ninguém aponta o dedo para você.

As pessoas que apontam o dedo para as outras – porque são negras, pobres ou cadeirantes – é porque não se amam.

É preciso repaginar o que é bonito. Bonito é o que eu acho bonito.

4. Dança para cadeirantes não é um problema

Sempre trabalhei com projetos de inclusão nas escolas, mas isso nunca foi um problema ou destaque para mim e nunca gostei de fazer turmas separadas. Se as pessoas querem dançar, por que não podem ficar juntas? Se ela tem síndrome de Down ou é cadeirante, e está se expressando, então por que separá-la?

Minha dança não é para isso.

Quando Carla Maia [cadeirante, fundadora do Street Cadeirante] me procurou em uma escola para aprender a dançar, não dei uma atenção especial para ela. Então, ela estranhou. Fui mostrando pra ela os movimentos, adaptando algumas coisas, e isso deu liberdade para ela.

Tinha a Júlia na minha turma – eu não lembro o que ela tinha, porque não me atento a isso; pergunto como consegue sentir o tronco, como está o apoio… Mas a Júlia tinha bastante limitação de movimentos e acompanhava do jeito dela. O mais importante é que está se conectando comigo e, mesmo dançando do jeito dela, está me acompanhando.

No Street Cadeirante, todas conseguem conduzir a própria cadeirante. Mas, em alguns shows, quando é preciso se movimentar pelo palco, minha companhia de dança participa, para ajudá-las a mudar de lugar rapidamente. Mas não faço muito a dança com deslocamento de cadeira.

 Wesley entre algumas das bailarinas do Street Cadeirante (Foto: Facebook do grupo)

5. Cadeirantes podem ser expressivos mesmo sem mover as pernas?

Sim, podem ser expressivos como todo mundo.

O que é expressão? Isto aqui [mostra, fazendo gestos] é movimento, um caminho para se expressar. Agora, como eu vou fazer isso é que faz disso uma dança. Como vou desenhar este movimento? O que estou passando de sentimento com este movimento? O que quero transmitir para as pessoas sem falar uma só palavra, só com meu corpo?

Quando faço um trabalho coreográfico com o Street Cadeirante, tenho outras preocupações: o efeito visual, como vai ser a movimentação no palco, para onde vou direcionar o olho da plateia, que sensação quero causar… O trabalho dos bailarinas e bailarinos é deixar isso maravilhosamente bem executado, e com uma expressão, uma energia e uma verdade com que as pessoas se conectem.

Eu dou o visual, a movimentação tanto do palco quanto corporal, e os bailarinos preenchem isso com a verdade.

[Para se aprofundar nesta parte, ouça do minuto 23 até 27 do vídeo]

6. Dança é para qualquer pessoa

Não sei se eu penso assim porque sou negro, e as pessoas me discriminaram muito na minha infância… E hoje ainda rola.

Mas eu nunca tive esse problema de discriminar. Pra mim, é tudo igual, dar aula pra mulher, homem, gordo, magro, rico, pobre… São pessoas querendo se expressar, se movimentar, porque têm uma paixão. É alimentar uma vontade de liberdade.

Todo mundo pode fazer, de qualquer idade. Amo crianças, e tenho bailarinos que começaram com 8 anos. Criança tem menos neura, não tem vergonha.

7. Se está vivo, faz!

A gente é criado para ter medo de ficar ridículo, feio… E o que é feio, o que é ridículo?

Vamos viver, vamos sonhar. Nunca podemos parar de querer as coisas.

Ninguém está velho para isso. Se está vivo, faz!

Coreografia do Street Cadeirante:




Street Cadeirante

Fonte: Cadeira Voadora 

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