01/02/2018

Como planejar uma viagem acessível

Você sabia? Algo não pode ser considerado
acessível se não oferecer:
segurança + autonomia.
Quando uma pessoa com deficiência ou com mobilidade reduzida decide viajar, é comum que se sinta um pouco perdida. Afinal, se já é complexo planejar uma viagem – a não ser que você seja do tipo que não se importe com imprevistos –, é ainda mais complexo quando precisamos que seja uma viagem acessível.
Porém, com algumas orientações é possível preparar tudo com tranquilidade, de forma leve e até divertida. E lembre-se: todas as dicas que compartilho com você neste post foram testadas por mim, em anos e anos de aventuras pelo Brasil e por alguns outros países. Não foram copiadas de nenhum site ou blog, certo?

Também preciso dizer que essas dicas são igualmente válidas se você preferir utilizar os serviços de uma agência de turismo em vez de planejar tudo por conta própria. Afinal, não é porque contratou os serviços de uma agência que você vai deixar tudo por conta dela. Nós é que sabemos das nossas especificidades e dos perrengues que passamos quando algo dá errado. Por isso, acompanhe tudo passo a passo, não porque falte competência aos outros, mas porque tudo tem de acontecer da melhor forma que for possível.

Segurança e autonomia

A pessoa com deficiência precisa ter segurança para se locomover, para utilizar equipamentos, para tomar banho e por aí vai. Isso parece óbvio, não é mesmo? #SóQueNão

Veja dois exemplos: é raro encontrar plataformas elevatórias que sejam de fato seguras. E muitos banheiros considerados acessíveis não têm barras de apoio. Concordo; é lamentável.

E quanto à autonomia?

Não é que a gente não possa pedir ajuda às pessoas. Todo mundo às vezes precisa recorrer ao outro. Porém, se a pessoa com deficiência não pode entrar e sair do hotel no momento em que tem vontade; se não alcança a comida na hora de se servir; se não pode tomar o café da manhã se não houver quem ajude… então, ela não tem autonomia. Ou seja: ela não pode exercer a própria vontade; precisa esperar que outra pessoa a ajude, na hora em que for possível.

Guarde isto: para que algo seja considerado acessível, não deve haver restrição à liberdade de escolha.

Tenho observado que esse pressuposto parece ser difícil de ser compreendido por uma pessoa que não tem deficiência. É que persiste a ideia de que é preciso “ajudar o deficiente”. Tudo isso é reflexo da visão assistencialista e caritativa que ainda vigora e que valoriza a tutela.

Esclarecido esse pressuposto, vamos às dicas? Espero, de coração, que elas tornem sua viagem mais saborosa! <3

Fala sério: esta plataforma elevatória lhe parece segura? A mim, não. Mas já usei piores…


#Dica 1 | A escolha do destino


Já começamos a falar de autonomia na primeira dica.

Para escolher o destino de viagem, penso que a pessoa deve se fazer duas perguntas:

  • Para onde quero ir?
  • Para onde posso ir?

Dessa forma, ela reconhece seu desejo, seu sonho, mas não abre mão do bom senso. É preciso lembrar que queremos nos divertir, e não comprometer a viagem por causa do excesso de desafios ou até mesmo de riscos.

Para responder a essas duas perguntas, é necessário se conhecer! Então, pense:

De que nível de acessibilidade você precisa? Por exemplo: Dá pra se virar com um banheiro que tenha a porta estreita? Consegue subir um ou dois degraus?

Qual estação do ano é mais favorável para você? Para mim, primavera e outono são as ideais, porque passo mal em climas quentes, e nas estações muito frias as roupas e calçados tolhem minha liberdade de movimentos. Você pode pensar que não, mas essa escolha fará diferença. Ninguém merece passar a temporada de férias passando mal ou, no mínimo, irritado com o clima.

Você pode dispor de que valor financeiro? Isso precisa ser considerado, e é bom que os cálculos sejam feitos na ponta do lápis, para que sua viagem não seja uma fonte de dor de cabeça.

Talvez você queira ir para Fernando de Noronha, mas os acompanhantes disponíveis preferem Punta Cana. Se este é um destino que também te faria feliz, pode valer a pena mudar de rota para não abrir mão da companhia.

Pode ser que o destino de viagem que você almeja esteja com os preços acima da média. Que tal escolher outra data, ou outro destino, para reduzir os custos? Se for possível fazer isso, ótimo. O bolso agradece.

Nem sempre você vai conseguir ir para onde deseja nas primeiras viagens.

Para algumas delas, será necessário ter mais experiência, mais dinheiro ou companhias mais adequadas.

Isso não significa que você não possa ter uma viagem maravilhosa, mesmo que precise, por ora, escolher o segundo ou terceiro destino da sua lista de sonhos!

Avalie o clima do local antes de se decidir, mas tenha em mente que serviço meteorológico falha!

#Dica 2 | Sozinho ou acompanhado?

Não são poucas as pessoas que desejam ter a experiência de viajar sozinhas, e com razão. Afinal, é enriquecedor! Um grande exercício de autoconhecimento, de perceber os próprios limites, de se virar, aprender a pedir ajuda e a driblar as dificuldades.

Porém, não é simples decidir isso quando se tem uma deficiência. É preciso ter os pés na terra e se conhecer bem, para evitar tomar uma decisão que te coloque em risco.

Sugiro alguns critérios para uma decisão adequada.

Você tem independência para realizar as atividades de vida diária? Liste todas que se lembrar e vá checando uma a uma.

Como estão suas condições de saúde?

Você é sociável?

Qual é a sua disposição para pedir e aceitar ajuda?

Você é uma pessoa resiliente?

Viajar sozinho, tendo uma deficiência, é ao mesmo tempo instigante e amedrontador. Quando decidi partir para a Inglaterra e ficar sozinha fazendo intercâmbio, eu já tinha muita experiência na bagagem. Mesmo assim, passei alguns apertos…

#Dica 3 | Tem que ser rico para fazer uma viagem bacana?

Claro que não!

Com algumas estratégias, sua viagem pode custar até 40% menos.

Poupança: o brasileiro não tem o hábito de juntar dinheiro para depois comprar algo. Mas fazer uma aplicação para depois comprar a viagem à vista pode render bons descontos!

Viaje em baixa temporada! Sai MUITO mais barato.

Compre passagens aéreas com antecedência ou na promoção. Você também pode trocar por pontos do cartão de crédito.

Antes de reservar o hotel, faça uma cotação: pesquise em sites do tipo Booking, mas também no site do hotel (ou até ligue para o hotel, principalmente no caso de pequenos estabelecimentos, pois eles têm autonomia para oferecer desconto). E não tenha preconceito contra agências: já consegui tarifas melhores nelas do que no Booking.

Fazer uma poupança de viagem pode dar lucro!

#Dica 4 | Preparação da viagem

Não importa se você vai preparar a viagem sozinho ou se vai recorrer a agências. Em qualquer circunstância, tenha em mente que você é o único responsável por tornar sua viagem a melhor possível! Isso é exercício de autonomia.

Se optar por agência, ela deve ser assessorada passo a passo por você.

Afinal, quem sabe das suas necessidades específicas?

Seu pai? Sua mãe? Seu cuidador?

Não seja ingênuo. Quem sabe é: V O C Ê !

Antecedência para planejamento

Pesquisa da acessibilidade no destino: de 6 meses a um ano antes. É melhor não deixar nada para fazer em cima da hora, a menos que queira aumentar as possibilidades de perrengues.

Reserva do hotel: cerca de 3 meses antes, pois muitos hotéis têm poucos quartos adaptados.

Aquisição da passagem: cerca de 3 meses antes. Passagens compradas com antecedência menor que um mês são muito mais caras, a não ser que surja uma promoção. Mas é arriscado esperar.

Prepare-se a si mesmo!

Viajar é muito mais confortável e seguro quando a saúde está recebendo cuidados permanentes. Mesmo assim, é útil fazer um check-up antes de comprar passagens. Dessa forma, além de evitar problemas longe de casa, você garante que terá energia e ânimo para passear!

Manter uma atividade física garante que você terá bom preparo para a viagem. Como assim? Bem, se você não é sedentário,  terá mais chances de ter: diminuição do impacto produzido pelas horas que passar no avião (menos dor, menos edemas); força e resistência para tocar a cadeira de rodas ou passear de muletas; energia para passear durante muitas horas por dia!

Adquira vestuário adequado para a temperatura que vai enfrentar. A tecnologia deixou tudo mais simples, e hoje há roupas e calçados adequados para todos os climas e situações. Para que você vai usar roupas pesadas, se há agasalhos super leves e eficientes? Para que vai correr risco de queimaduras solares, se há roupas com proteção?

Adquira em sua cidade os medicamentos de que irá precisar. Em muitos países pode ser difícil comprá-los. É bom que eles estejam acompanhados da receita médica (principalmente se forem de uso controlado) e é imprescindível que estejam na bagagem de mão. Se sua mala for extraviada, eles estão seguros com você.

Não viaje sem seguro-saúde.

Uma rotina de exercícios e alongamentos (incluindo a prática do ortostatismo) podem prevenir muitos problemas durante a viagem


#Dica 5 | Compra da passagem aérea

Vigie as promoções. Para isso, assine as newsletters do site Melhores Destinos e de todas as companhias aéreas que lhe interessarem, para que receba alertas.

Se tiver cartão de crédito, compre tudo com ele, para juntar pontos e trocar por passagens. Mas não faça cartão só por causa disso! Pode sair muito caro.

O tempo entre conexões deve ser de no mínimo duas horas. Isso porque o cadeirante é o último a sair da aeronave, e às vezes ainda acontece de a cadeira de rodas demorar a chegar. Então, não corra risco: deixe um intervalo maior se não quiser perder a conexão; faça tudo com calma, sem estresse. Até porque você pode aproveitar a conexão para ir ao banheiro ou comer algo.

Observe os horários de chegada e saída do aeroporto. Não é bom chegar de madrugada a um destino desconhecido.

Vale a pena planejar os deslocamentos mais importantes. Isso reduz custo! Na foto, eu, Ida e Solange com o gentil motorista que nos transportou em Salvador.
  
Etapas para a compra da passagem:

Pesquise datas, horários, conexões, tarifas, política de bagagem. Saiba que, dependendo do horário, ou do dia da semana, o preço pode cair muito. E a política de bagagem também interfere no preço.

Você pode recorrer aos buscadores, mas tenha em mente que é mais seguro comprar pelo site da companhia aérea. Muitos sites de compra de passagem têm ficha suja no Procon.

Investigue, no site da companhia aérea, as políticas de atendimento à pessoa com deficiência. Elas podem ser diferentes em cada companhia e também em outros países.

O acompanhante da pessoa com deficiência pode ter direito a desconto. Procure se informar.

Ao adquirir a passagem pelo site da companhia aérea, haverá os campos apropriados para solicitar auxílio no aeroporto e também para escolher refeição. Examine tudo com atenção.

Se tudo isso lhe parece complicado, contrate uma boa agência de turismo.

#Dica 6 | Escolha do hotel

  De que nível de acessibilidade você precisa? Algumas pessoas podem conseguir tarifas mais baixas em caso de menores limitações físicas. Para outras, já será necessário haver adaptações mais específicas.

Sugiro que você respeite com carinho suas necessidades e limitações. Fique em paz com elas. Não vale a pena abrir mão do conforto na hora de dormir, nem da segurança no banho – às vezes, o barato pode sair caro. Se você não estiver descansado e confortável, vai aproveitar menos sua viagem. Pode vir a ter dores e problemas musculares. Deixe para economizar em outros itens!

Ao escolher o hotel, certifique-se de que ele de fato oferece aquilo que você precisa. Por exemplo, mande um e-mail explicando o óbvio: “Não fico de pé e preciso tomar banho assentado. O hotel tem cadeira de banho?” Especifique o tipo de assento que você precisa: cadeira, tamborete, assento fixo à parede. Não tenha vergonha de ser óbvio. Num caso desses, é melhor pecar pelo excesso.

Confirme se a entrada não tem degrau.

Com qual equipamento você vai viajar? Scooter, cadeira de rodas manual, cadeira motorizada? Cada um deles requer condições específicas, para que você possa usar banheiro e elevador, por exemplo. Leve isso em consideração na hora de escolher.

Alguns hotéis só oferecem cama de casal; outros, só de solteiro. Confirme antes de fazer a reserva.

Examine as condições do quarto (guarda-roupa, espaço de giro, etc.)

Se você for cadeirante, pesquise se o quarteirão onde se localiza o hotel é plano. Isso facilitará seus deslocamentos.

Pesquise o entorno. É melhor quando há restaurantes, farmácia e lojas por perto, principalmente se você estiver sozinho.

Examine se o hotel fica próximo da rede de metrô ou das atrações turísticas. Assim, você gasta menos tempo em deslocamentos e sobra mais para conhecer o destino.

Nem sempre será possível atender a tantos critérios, até porque um hotel que atenda a todos eles será mais caro. Fique com o que for imprescindível para você. E relaxe quanto ao restante!

 #Dica 7 | Mala

A mala deve ser resistente. Ela não pode quebrar na primeira viagem, não é mesmo?

Deve ter no mínimo 4 rodinhas e giro de 360°, para facilitar os deslocamentos. Isso faz total diferença!

Use mala pequena ou média. Evite a grande, para facilitar transporte e deslocamentos.

Medicamentos e itens eletrônicos: vão na bagagem de mão

Itens que vai precisar durante o voo: coloque tudo separado num nécessaire e o mantenha consigo durante a viagem.

A mala não é um detalhe. Tenha juízo!

Apesar de todo o planejamento, lembre-se:

Nem tudo vai dar certo. O controle de tantas circunstâncias não está nas nossas mãos!

Se algo não acontecer do jeito que você esperava, não deixe que isso estrague sua viagem.

Meu conselho final, inspirada nas orientações culinárias de Bela Gil:

Você pode substituir perfeição por satisfação!

Aproveite o máximo possível a oportunidade! E agradeça ao universo por ela!

Espero que este post lhe seja muito útil.

Até a próxima, e grata pela companhia.


Laura

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