06/12/2017

‘Atypical’ e a visão romântica do autismo


Série do Netflix aborda a vida de Sam Gardner, jovem de 18 anos que está no espectro e tem alta funcionalidade. Em entrevista ao #blogVencerLimites, pessoas diretamente envolvidas com o Transtorno do Espectro Autista analisam o seriado, marcam pontos positivos e negativos, avaliam o que está correto e quais os erros, e destacam o que ainda precisa ser mostrado para dar ao projeto mais representatividade. ALERTA DE SPOILER: essa reportagem contém detalhes dos episódios.

“Me identifiquei bastante com o Sam. Na época em que comecei a procurar parceiras, passei por muitas situações semelhantes, com a diferença de que eu não tinha um melhor amigo como o Zahid para me auxiliar na busca e na compreensão do sexo oposto”, conta Rodrigo Tramonte, artista plástico, cartunista e caricaturista, palestrante e autor do livro ‘Humor Azul – O Lado Engraçado do Autismo’, lançado em 2016.

Tramonte afirma ainda preservar algumas das mesmas dificuldades de interação social enfrentadas pelo personagem do seriado. “As cenas em que ele pesquisa técnicas de abordagem de garotas em vídeos na internet, ele tenta sorrir para uma garota e acaba fazendo uma careta, e ele se apaixona pela própria terapeuta (e, consequentemente, é rejeitado). Tudo isso já aconteceu comigo”.

O escritor ressalta que a série acerta em mostrar o cotidiano do restante da família de Sam (os pais e a irmã), e revelar que, apesar de eles não serem autistas, também têm suas próprias inseguranças, deficiências e vícios.

“Tive diagnóstico tardio de Síndrome de Asperger, apenas em 2011, aos 31 anos. Fiz tratamento psiquiátrico desde a infância, mas antes disso nenhum dos profissionais que me atenderam comentou comigo e meus pais sobre a possibilidade de eu ser autista. Minha condição já foi confundida com timidez excessiva e superdotação. Meu tipo de autismo só foi catalogado no DSM (Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais) em 1994, quando eu já era adolescente, e nessa época a área da saúde no Brasil ainda acreditava que o único autismo existente era o clássico, no qual a pessoa não se comunica com a fala e possui a coordenação motora altamente prejudicada”.

O caricaturista comenta que o comportamento do Sam é mais próximo dos “Aspies”, porque ele segue uma rotina parecida com a de pessoas sem autismo: estuda em colégio regular, tem emprego de meio período, tem um melhor amigo e um animal de estimação. “As dificuldades enfrentadas por ele são mais no campo da interação social, principalmente em relação à abordagem de pessoas do sexo oposto, e à sua sinceridade excessiva, que acaba gerando constrangimentos em alguns casos”.

Para o cartunista, Atypical precisa mostrar autistas de graus diferentes e também do sexo feminino. “A séria é ambientada em uma cidade dos EUA. O protagonista é um rapaz branco de classe média alta com um emprego, acesso à educação e saúde de qualidade, e um melhor amigo inseparável, enquanto uma das maiores queixas dos autistas da vida real é não terem amigos. A sua realidade é muito distante da maioria das famílias de autistas de nosso País”, afirma Tramonte. “Os pais e irmã do Sam, apesar de serem dedicados e zelosos, têm alguns comportamentos bastante questionáveis, o que pode fazer algumas famílias se sentirem ofendidas ao levarem a interpretação para o lado pessoal”, conclui o artista plástico.

“Me identifiquei bastante com o Sam. Na época em que comecei a procurar parceiras, passei por muitas situações semelhantes, com a diferença de que eu não tinha um melhor amigo como o Zahid para me auxiliar na busca e na compreensão do sexo oposto”, conta Rodrigo Tramonte, artista plástico, cartunista e caricaturista, palestrante e autor do livro ‘Humor Azul – O Lado Engraçado do Autismo’, lançado em 2016.

Tramonte afirma ainda preservar algumas das mesmas dificuldades de interação social enfrentadas pelo personagem do seriado. “As cenas em que ele pesquisa técnicas de abordagem de garotas em vídeos na internet, ele tenta sorrir para uma garota e acaba fazendo uma careta, e ele se apaixona pela própria terapeuta (e, consequentemente, é rejeitado). Tudo isso já aconteceu comigo”.

O escritor ressalta que a série acerta em mostrar o cotidiano do restante da família de Sam (os pais e a irmã), e revelar que, apesar de eles não serem autistas, também têm suas próprias inseguranças, deficiências e vícios.

“Tive diagnóstico tardio de Síndrome de Asperger, apenas em 2011, aos 31 anos. Fiz tratamento psiquiátrico desde a infância, mas antes disso nenhum dos profissionais que me atenderam comentou comigo e meus pais sobre a possibilidade de eu ser autista. Minha condição já foi confundida com timidez excessiva e superdotação. Meu tipo de autismo só foi catalogado no DSM (Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais) em 1994, quando eu já era adolescente, e nessa época a área da saúde no Brasil ainda acreditava que o único autismo existente era o clássico, no qual a pessoa não se comunica com a fala e possui a coordenação motora altamente prejudicada”.

O caricaturista comenta que o comportamento do Sam é mais próximo dos “Aspies”, porque ele segue uma rotina parecida com a de pessoas sem autismo: estuda em colégio regular, tem emprego de meio período, tem um melhor amigo e um animal de estimação. “As dificuldades enfrentadas por ele são mais no campo da interação social, principalmente em relação à abordagem de pessoas do sexo oposto, e à sua sinceridade excessiva, que acaba gerando constrangimentos em alguns casos”.

Para o cartunista, Atypical precisa mostrar autistas de graus diferentes e também do sexo feminino. “A séria é ambientada em uma cidade dos EUA. O protagonista é um rapaz branco de classe média alta com um emprego, acesso à educação e saúde de qualidade, e um melhor amigo inseparável, enquanto uma das maiores queixas dos autistas da vida real é não terem amigos. A sua realidade é muito distante da maioria das famílias de autistas de nosso País”, afirma Tramonte. “Os pais e irmã do Sam, apesar de serem dedicados e zelosos, têm alguns comportamentos bastante questionáveis, o que pode fazer algumas famílias se sentirem ofendidas ao levarem a interpretação para o lado pessoal”, conclui o artista plástico.

“As características relativas ao Sam são bastante próximas daquelas apresentadas em pessoas com o transtorno do espectro autista sem déficit cognitivo, ou seja, sem a deficiência intelectual presente em seu desenvolvimento. Em um modelo anterior ao DSM V (Diagnostic and Statistical Manual) estes indivíduos em alto funcionamento diagnosticados com o TEA eram chamados de Asperger. Encontramos algumas outras abordagens no cinema e na literatura discorrendo sobre a forma como se dá o desenvolvimento de pessoas que têm o diagnóstico”, explica Victor Martinez, pedagogo do serviço de qualificação e inclusão profissional da Apae de São Paulo.

“Na série foram muito bem apresentadas as seguintes características: dificuldade em compreender os sentimentos e as emoções da mesma forma que o senso comum às compreende; demonstração de altos níveis de ansiedade diante de um conteúdo desconhecido; alta percepção sensitiva no ambiente onde convive; linguagem sem melindre diante das pessoas que o cercam; interesses peculiares, como no caso de Sam a fixação por tudo que envolve a Antártica e as espécies que vivem nas regiões frias; sua dificuldade em ter uma reflexão sem uma referência anterior de pensamento já conhecida por ele; além da reverberação de uma mesma palavra em sua cabeça, ou seja, o surgimento de pensamentos repetitivos sobre um tema específico”, comenta Martinez.

Para o pedagogo, a série deixa evidente a forma como Sam sente o mundo e convida à reflexão. “Será que todos, em determinada proporção, também não sentem o mundo de forma particular? A única diferença é que as pessoas costumam utilizar a crítica para tentarem se encaixar, serem aceitas na comunidade em que vivem”.

Rodrigo Tramonte é artista plástico, cartunista e caricaturista, palestrante e autor do livro ‘Humor Azul – O Lado Engraçado do Autismo’, lançado em 2016. Imagem: Reprodução



#blogVencerLimites – E sobre o comportamento mostrado pelas pessoas em volta, família, amigos?

Victor Martinez – Sobre as pessoas que o cercam, os papéis foram muito bem demonstrados. Nas famílias em que há pessoas com algum tipo de deficiência ou transtorno, é bastante comum observar sentimentos como negação, omissão do diagnóstico, abandono e distanciamento de um dos pais, na maioria das vezes o homem, e centralização da atenção somente no filho com o diagnóstico, dando a sensação de abandono aos demais filhos.

São características frequentes até que haja uma compreensão mais ampla de todos que compõem o núcleo familiar, superando este primeiro momento de luto. Outro tema retratado na série é a superproteção e a dificuldade da mãe em retomar sua própria vida, em se ver como mulher em sua pluralidade, à medida que Sam cresce e começa a precisar menos de seu apoio.

Em relação à escola, fica aparente que se trata um espaço inclusivo, pois Sam consegue desenvolver integralmente sua parte cognitiva. Também são demonstradas algumas dificuldades de socialização que costumam ser encontradas por qualquer outro adolescente na mesma idade.

O local onde Sam trabalha também demonstra ser bastante inclusivo, pois fica claro que ele é treinado para saber tudo sobre os materiais vendidos em sua loja, sendo colocado em uma função onde seus pontos fortes em organização e conhecimento são destacados. Não esperam que ele atenda aos clientes, nem dão ênfase a outras habilidades que exijam uma socialização complexa. Em seu trabalho, Sam encontra também a amizade, e a partir disso alcança apoio na busca de seu objetivo em conseguir se relacionar amorosamente.

#blogVencerLimites – Quais detalhes da série o senhor não gosta?

Victor Martinez – Na primeira temporada da série são retratadas algumas características que não podemos dizer que são irreais, mas que nunca vemos nos atendimentos. A capacidade cognitiva de Sam é algo que não vemos em pessoas com o espectro, sendo desenvolvida diante de todas as matérias escolares e também a conteúdos generalistas que lhe são apresentados no trabalho e em outros ambientes.

O que vemos constantemente nos jovens que atendemos, mesmo naqueles que possuem um alto funcionamento, é uma habilidade formidável, na maioria das vezes acima da média, em alguns interesses acadêmicos peculiares. Portanto, o alto funcionamento apresentado em tudo que Sam faz é algo que nunca observamos em uma pessoa com o espectro.

Outro ponto que nunca notamos em uma pessoa com espectro é o exercício de empatia demonstrado por Sam em alguns momentos da série. Observamos que o julgamento é sempre feito na primeira pessoa. Porém, pedir para que a pessoa com o espectro se coloque no lugar do outro e entenda o que o outro está sentindo é um exercício de empatia que nunca presenciamos em alguém com o TEA.

“A série não esclareceu que existem níveis mais severos de autismo que levam à extrema dependência dos pais e afetam gravemente a aprendizagem escolar. Tem uma visão um pouco romantizada”, diz o neuropediatra Clay Brites, um dos idealizadores do Instituto NeuroSaber, pesquisador e doutorando do Laboratório de Dificuldades e Distúrbios da Aprendizagem e Transtornos de Atenção (Disapre) da Universidade de Campinas (Unicamp), professor do curso de pós-graduação de Neuropsicologia Aplicada à Neurologia Infantil na Unicamp e membro do Departamento de Neurologia da Sociedade Paranaense de Pediatria.

“Por outro lado, gostei por ter abordado o Asperger, o que ainda costuma gerar muitas dúvidas no público em geral, e também por abordar bem e de forma muito didática seus distúrbios sensoriais, problemas de compreensão de linguagem de duplo sentido e momentos de ‘surto’ por excesso de estímulos ou por conflitos sociais”.

#blogVencerLimites – Qual a sua avaliação sobre de forma como o personagem que tem autismo é apresentado?

Clay Brites – Ele está mesmo no espectro e tem nível de inteligência normal ou até superior para a idade. Podemos dizer seguramente que ele se enquadraria na classificação atual (DSM-5), no Transtorno do Espectro Autista Leve.

#blogVencerLimites – E sobre o comportamento mostrado pelas pessoas em volta, família, amigos?

Clay Brites – O comportamento da família pode ser considerado bem consciente do que ele tem e de grande conhecimento acerca de sua condição, protegendo-o e proporcionando conforto e adaptação ao ambiente. Em relação aos amigos, na escola pouco são conscientes, tratando-o como diferente, e o amigo do trabalho compreendendo-o mais, com metáforas que Sam não entende, mas que o amigo julga que ele já entendeu, especialmente em relação aos vocabulários sexuais de duplo sentido. A série é romantizada e tem bom humor, mas na realidade não é bem assim, inclusive com bullying e fobia social.

“Chamou atenção a preocupação em não abordar somente o autista, mas também todos os envolvidos no processo. Fala sobre as dúvidas da mãe e o pai. Gostei muito da maneira como é demonstrada a relação da irmã, que tem a vida afetada, além do que o protagonista vivencia”, diz Emanoele Freitas, escritora, pesquisadora, palestrante, mediadora escolar e familiar, fundadora e atual presidente da Associação de Apoio à Pessoa Autista (AAPA).

“O Sam é apresentado como um autista de alto funcionamento, muitas vezes avaliado de forma equivocada como alguém que não enfrenta dificuldades. E a séria comprova que a pessoa autista de alta funcionalidade tem sim problemas sociais, de desenvolvimento, até em nível amoroso, em esquecer que ele é um adolescente, com os anseios próprios dessa fase da vida. O projeto como um todo é muito interessante”.

A pesquisadora, que tem um filho autista, destaca que as cenas do grupo de familiares de pessoas que estão no espectro são muito bem elaboradas e representam de forma correta o que costuma acontecer.

Segundo a especialista, embora Sam Gardner seja apresentado como um autista de alto funcionamento, não é correto afirma que ele exemplifica a situação de pessoas que tem a Síndrome de Asperger. “Não são todas as pessoas com Asperger que têm alto funcionamento. O que a séria mostra é um jovem autista com suas particularidades”.

Autistas de alfo funcionamento, explica a presidente da AAPA, têm habilidades específicas, criam formas próprias de se desenvolver, têm dificuldades de socialização, mas não de linguagem. “Interação social e interpretação de textos, por exemplo, são dificultosos. Essa fase da adolescência é a mais difícil para autistas de alta funcionalidade, porque eles precisam criar padrões de convivência e escolher lados”.

O comportamento do protagonista de Atypical é, na avaliação de Emanoele Freitas, muito próximo da realidade. “Ele lembra muito um amigo meu. Essa questão da roupa, seguindo sempre o mesmo padrão, a mesma cor e o tecido. Quando o Sam verifica a necessidade de modificar sua roupa para se adaptar, notamos essa questão da alta funcionalidade. Esse tipo de situação para uma pessoa com Asperger seria bastante complexa”.

Outra abordagem bastante acertada no que diz respeito ao comportamento de Sam Gardner é a forma literal de se comunicar, quando ele precisa se expressar e também para compreender determinador termos. “Existe realmente essa coisa da compreensão e da semântica, mas eles conseguem ultrapassar determinadas barreiras sem que isso caso um surto. É algo também comum para pessoas que têm Asperger, mas elas já entrariam em um contexto emocional difícil”. Sobre esse aspecto, ressalta a escritora, a construção do personagem Sam Gardner é muito correta.

O QUE FALTA? – Emanoele Freitas esperara que as próximas temporadas de Atypical façam um retrocesso e mostre o começo da vida de Sam Gardner. “Quando os pais realmente tiveram essa confirmação, o que eles fizeram para o rapaz atingir esse patamar de independência? Isso é importante para mostrar que existem graus de dificuldade no início para todos. Uma pessoa com autismo que é bem estimulada pode chegar à idade adulta com qualidade de vida”, conclui.

A primeira temporada de Atypical tem oito episódios, todos já liberados. A Netflix anunciou em setembro que a série terá a segunda temporada, dessa vez com dez capítulos. O ator Michael Rapaport, que vive o pai de Sam Gardner, comemorou a notícia no Twitter.

Sou um esquisito. É o que todos falam. Algumas vezes, não entendo o que os outros querem dizer e acabo me sentido sozinho, mesmo com várias pessoas ao meu redor. Só consigo me sentar e mexer os dedos, que é meu comportamento auto estimulante. Eu bato uma caneta em um elástico, em determinada frequência, e penso no que poderei fazer, como pesquisar pinguins na Antártida ou ter uma namorada”, diz Sam Gardner na primeira cena do seriado. Imagem: Reprodução
Para a jornalista Luciana Calaza, que tem um filho autista (Felipe, de 11 anos), a abordagem sobre a família é um dos trunfos da série. “É problemática como todas as famílias são, com filhos típicos ou atípicos. A série mostra o desgaste no casamento, o pai que no passado chegou a abandonar o lar e a traição da mãe. Crianças autistas demandam uma atenção extremamente maior que as crianças neurotípicas”, comenta.

“O cansaço que sentimos beira à exaustão física e mental. É normal que a vida a dois seja afetada. Também achei ótimo abordar a questão dos irmãos, que acabam vivenciando questões como mudanças de papéis na família – a irmã de Sam acaba sendo um pouco cuidadora dele -, perda ou ausência de atenção dos pais, sensação de vergonha frente aos colegas devido ao comportamento bizarro que crianças com autismo podem apresentar”.

#blogVencerLimites – Há uma discussão constante sobre nomenclaturas e a série também trata disso, debatendo se é correto dizer que a pessoa está no espectro, se a pessoa tem o Transtorno do Espectro do Autismo ou se a pessoa é autista. Na sua avaliação, algo ofende ou incomoda nesses termos?

Luciana Calaza – Não. Sempre falo que meu filho é autista. Entendo as razões de quem não gosta da nomenclatura, mas não me ligo nessa questão semântica. Só me incomodo quando se referem ao autismo como doença (especialmente na imprensa, porque entendo que o jornalista tem que ser cuidadoso com isso). Afinal, meu filho não é doente. Quem está doente fica curado, meu filho não vai se curar do autismo. Ele tem um transtorno, uma deficiência.

#blogVencerLimites – Quando surgiu esse diagnóstico? Ficou especificado o ‘tipo’?

Luciana Calaza – Embora eu tenha começado a investigar o atraso de linguagem de meu filho Felipe quando ele tinha 1 ano e meio, o diagnóstico só foi fechado aos 5 anos. Na ocasião, ele havia sofrido uma regressão significativa e o diagnóstico foi de Transtorno Desintegrativo da Infância (CID 10 – F84.3), que caracteriza-se por uma perda significativa de habilidades já adquiridas.

No atual DSM, é tudo autismo, que varia de leve a severo. Cá entre nós, com a experiência que tenho hoje, já tendo conhecido muitas famílias de pessoas com autismo, considero equivocado especificar o ‘tipo’ de autismo numa criança. Muitas são consideradas com autismo leve e acabam não apresentando muito progresso, apesar de uma agenda infinita de terapias. Outras se desenvolvem de uma forma surpreendente para pais e profissionais. Qualquer prognóstico é chute. É autismo e ponto. Hora de começar as intervenções terapêuticas.

#blogVencerLimites – Sobre a série, na sua avaliação, o personagem principal, Sam Gardner, apresentado como uma pessoa que ‘está no espectro’, mostra de forma correta como é o comportamento de uma pessoa nessa condição?

Luciana Calaza – Sim. É claro que, como sempre na indústria de TV e cinema, o autismo apresentado é o de alto funcionamento e, assim, a maioria das pessoas leigas continua ignorando a existência do autismo severo, aquele no qual o autista não se comunica verbalmente, tem dificuldades de aprendizagem e não tem sequer habilidade para as chamadas atividades de vida diária (tomar banho, ir ao banheiro, vestir-se e comer sem ajuda). Mas entendo que se trata de entretenimento e achei a abordagem bem correta – didática, sensível e divertida, sem romantizar o transtorno.

Sam é muito inteligente, mas extremamente literal, sincero e sem reservas, o que a série usa muito bem para efeito cômico. Também na vida real, a gente aprende a achar graça dessas ‘esquisitices’ dos nossos filhos. Meu filho Felipe, por exemplo, tem um atraso grave de linguagem, mas quando a presença de alguém o incomoda, ele pega pela mão e coloca porta afora (rs).

O personagem também tem distúrbios sensoriais significativos, que o fazem ter crises nervosas – como quando, na competição de atletismo da irmã, o cabelo de uma menina fica batendo no seu rosto e ele acaba entrando em colapso, ficando inclusive agressivo, ou quando a mãe não quer que ele vá ao shopping escolher as próprias roupas, porque sabe que o ambiente não controlado pode ser o gatilho para uma crise. Pensando no aspecto ‘educativo’, é interessante para que as pessoas entendam que um aparente episódio de birra pode ser uma crise nervosa de uma pessoa com autismo – quando são crianças, é constante essa confusão.

Tem ainda a questão do hiperfoco, comum em autistas de alto funcionamento (no caso de Sam, é a Antártica e os pinguins), que muitas vezes atrapalha a interação social, já que a pessoa autista não consegue diversificar os assuntos. Bem realista.

#blogVencerLimites – O que faltou na primeira temporada que pode ser incluído nas próximas?

Luciana Calaza – Estou ansiosa pela próxima temporada. Tem muito assunto que pode ser explorado: a peregrinação por tratamentos, a discussão sobre medicar ou não medicar, a questão da inclusão escolar, mas não diria que faltou nada. Se esses temas forem abordados, serão bem-vindos.



Fonte: Estadão
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