28/11/2017

Diversidade engolida não transforma a sociedade

Especialista em planejamento e treinamento para grandes empresas sobre como as corporações devem tratar funcionários com deficiência, o preconceito dos colegas de trabalho, cotas, capacitação e oportunismo. "Em breve falaremos da deficiência ao lembrar da superação de diferenças culturais e velhos pré-conceitos", afirma João Roncati, diretor da People+Strategy.


João Roncati é economista, com especialização em finanças e controladoria, e mestre em planejamento estratégico pela USP (Universidade de São Paulo). Atua nas área de estratégia, planejamento, gestão de projetos, mudanças organizacionais em diversos níveis, implementação de ferramentas estratégicas em capital humano (competências, avaliação 360) e formação de pessoas, com cursos de pós-graduação in company. Imagem: Divulgação


A contratação de pessoas com deficiência por empresas é uma exigência prevista na Lei nº 8.213/1991, também chamada de lei de cotas. Muitas companhias acreditam na inclusão e a praticam de maneira genuína, mas há um grande número de corporações, empresários e gestores que entendem essa obrigação como algo contraproducente e, por isso, optam por pagar multas ao invés de atender à legislação, ou contratam profissionais com deficiência e os alocam em subfunções.

“É preciso entender qual o benefício para a empresa, por que é necessário, na sociedade brasileira, a inclusão regulada por lei e, por fim, compreender os benefícios das cotas legais”, afirma João Roncati, diretor e sócio da People+Strategy, consultoria brasileira de planejamento, treinamento e coaching.

“São três perspectivas que se entrelaçam. Historicamente, observamos o indivíduo como beneficiário. Assim, recebê-lo é como encaixar na rotina alguém que demandará atenção extraordinária”, diz o especialista. “Ainda estamos flertando com a ideia de que a diversidade de formas e pensamentos é produtiva para a sociedade. Aceitamos essa ideia, ou a engolimos, porque é socialmente correto e obrigatório, mas não nos transformamos. São séculos de pré-conceitos profundamente arraigados, onde o diferente, sob muitos aspectos, deve ser afastado ou mantido longe”, analisa Roncati.

São comuns relatos de líderes sobre profissionais com deficiência que tentam chantagear a empresa, com ameaças se forem dispensadas, porque a lei de cotas exige a substituição dessa pessoa por outra, também com deficiência, em caso de demissão.

Trata-se de uma postura que tem forte impacto negativo na compreensão dos colegas de trabalho sobre a inclusão genuína e, segundo o consultor, existe porque a sociedade ainda está madura para tratar com normalidade o diferente e a minoria.

“Muitos enxergaram as cotas como boas oportunidades, caminhos para o menor esforço. É preciso lutar contra oportunismos, respostas fáceis e construção de atalhos”, defende.

Empresas costumam destacar que são obrigadas a assumir a função do Estado na capacitação de pessoas com deficiência, para que esses profissionais consigam cumprir suas funções, destacando a falta acesso a oportunidades para estudar. A falta de formação é sempre apresentada como um dos grandes obstáculos para a vida profissional de pessoas com deficiência

“Muitas organizações são voltadas ao tema e a acessibilidade tem sido construída de forma gradativa. Não estamos no ideal. É preciso sim cobrar da pessoa com deficiência a qualificação, mas é fato que as empresas investem em qualificação de uma forma geral”, comenta Roncati. “Somos um País com gigantesco número de analfabetos funcionais. Estamos longe de termos pessoas qualificadas em número e nível suficiente para os saltos que necessitamos enquanto economia”.

No que diz respeito ao sucesso de pessoas com deficiência em todos os setores, ainda persiste o ‘exemplo de superação’, com uma avaliação estigmatizada e superficial, sem mencionar as oportunidades que essas pessoas tiveram, nem de que forma de prepararam ou quais as vocações e talentos que elas têm.

Na avaliação do diretor da People+Strategy, é fundamental entender o contexto. 

“Qualquer exemplo superficial é ruim e dura pouco, com deficiência ou não. Caminhamos para soluções tecnológicas que nos permitiram conviver sem restrições. Em breve, em menos de uma geração, não falaremos da deficiência como historicamente a tratamos, mas sob outra e diferente ótica. Falaremos, ou lembraremos, da superação de diferenças culturais e velhos pré-conceitos”, conclui o consultor.

Fonte: Estadão
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