09/08/2016

Australiana esquece limitação para disputar Olimpíada e Paralimpíada

Por conta da deficiência, Melissa precisou adaptar o saque e os movimentos para ter equilíbrio (Foto: Elton de Castro)


Por conta da deficiência, Melissa precisou adaptar o saque e os movimentos para ter equilíbrio (Foto: Elton de Castro)

Não fosse por uma luva ortopédica, e Melissa Tapper seria mais uma mesatenista que treina diariamente no Riocentro. Acontece que a australiana de 26 anos é especial: será a primeira atleta do país a competir em uma mesma edição de Olimpíada e Paralimpíada. Com uma paralisia no braço direito, que a permite ter apenas 30% de movimento, fará história. E protagoniza o mais recente capítulo de uma tendência: cada vez mais, atletas paralímpicos vão competir nas olimpíadas.



Quem não conhece Melissa jamais desconfiaria de que ela tem a Paralisia Erb, causada por lesão em um grupo de nervos dos membros superiores. Foi assim na última segunda-feira. O treino da seleção transcorria normalmente. Até a atleta mexer na luva. Pronto. Havia algo diferente.



A paralisia, geralmente, ocorre no nascimento. Melissa conta que, como era um bebê muito grande, teve um parto normal complicado. O braço direito dela ficou preso, entre o pescoço e ombro. Desde sempre, então, convive com a deficiência. A maior dificuldade, diz, foi ter de aprender a fazer tudo com o braço esquerdo. Passou por frustrações pela limitação, desde escrita ao manuseio de objetos, mas garante não ter sofrido preconceito. O apoio familiar, especialmente do pai Charles e da mãe Diane, e do treinador George Fitzpatrick a encorajaram a superar as adversidades.



Foi no colégio que comecei a praticar. Eu tinha entre oito e nove anos. Era apenas uma diversão. Com o passar do tempo, fui melhorando. Passei a ganhar mais jogos. Quando se ganha, se tem mais vontade de jogar. É simples. Então, decidi que era isso que queria fazer - relembra Melissa.



"Os paralímpicos são muito determinados. São tão bons quantos os outros. Fazem o que precisa ser feito com competência. É possível que qualquer um que trabalhe duro e consiga". Melissa Tapper, mesatenista australiana



A simplicidade é uma marca da australiana. Ela precisou adaptar o saque – a regra determina que bolinha deve ser alçada por, no mínimo, 16 centímetros. O faz com a mão direita. Outra necessidade: o uso dos braços para ter equilíbrio na disputa. A quem olha de fora, nada muito diferente dos demais. Talvez por isso, embora saiba do próprio feito, Melissa não o encare como diferenciação aos demais atletas. Verdade que não é inédito. A polonesa Natalia Partyka, igualmente na Rio 2016, foi a primeira mesatenista paralímpica a disputar os Jogos Olímpicos - participou em duas edições, Pequim 2008 e Londres 2012. Na classe TT10, a de competidores andantes, é tricampeã: levou o ouro em Atenas 2004, Pequim 2008 e Londres 2012. Na edição inglesa, aliás, a então estreante Melissa foi superada por Natalia na semifinal.



Antes de Natalia, outras quebraram barreiras. A norte-americana Marla Runyan, cega, correu os 1.500m em Sydney 2000 (ficou em oitavo na final) e em Atenas 2004. A italiana Assunta Legnante, do arremesso de peso, competiu em Pequim 2008. Em Atlanta 1996, outra italiana, Paola Fantato, disputou provas olímpicas do tiro com arco. Em Barcelona 1992, tinha sido a vez da atiradora Sonia Vettenburg, da Bulgária. A pioneira, porém, foi a neozelandesa Neroli Fairhall (1944-2006), paraplégica, que participou do tiro com arco em Los Angeles 1984. O caso mais famoso foi o de Oscar Pistorius, o sul-africano dos 400m rasos. Chegou à final olímpica do revezamento com a seleção da África do Sul.



Sim, claro, me parece ser uma tendência. Há outros atletas fazendo isso. Os paralímpicos são muito determinados. São tão bons quantos os outros. Fazem o que precisa ser feito com competência. É possível que qualquer um que trabalhe duro e consiga - ensina Melissa, medalhista de bronze no Mundial Paralímpico de 2014.



Ela é uma prova. A tentativa de ter classificação olímpica bateu na trave por três vezes. Na classificação a Rio 2016, foi via Pré-Olímpico da Oceania. Aqui um episódio engraçado: depois da classificação, passou horas no exame antidoping. Ao terminá-lo, pegou o carro e rumou de Bendigo a Hamilton, sua cidade natal. A comemoração foi no carro, sozinha.



Melissa vai competir, com os demais, de 6 a 17, no Riocentro. Ele deseja encontrar tempo para visitar o Cristo Redentor, mercados populares e alguma praia. Caso não consiga, tem a chance na Paralimpíada, de 8 a 17 de setembro.



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