22/09/2015

JN mostra por que cães guias para cegos são tão raros no Brasil


Esta semana o Jornal Nacional está apresentando uma série especial de reportagens sobre uma falta de respeito a milhões de cidadãos. Nesta terça-feira (15), a gente vai ver como é difícil treinar um cachorro pra ser guia de cegos. Só existem 150 no país. E o que não falta, no Brasil, são obstáculos.

De uma hora para a outra, uma cirurgia no joelho e três meses na cadeira de rodas.

“Tem que ter uma ‘auto escola’ pra andar, porque é complicado. Você vai para um lado, ela vai pro outro, ela pesa. Nossa, os braços doem demais”, contou a comerciante Jamilla Magalhães.

Ainda bem que ela tem com quem contar - o marido sempre dá uma forcinha. Aliás, bota força nisso.

“Por mais que ele faça por amor, por mais que ele faça porque ele quer e por mais que sei que se fosse o contrário eu também faria, eu me sinto um peso”, disse Jamilla.

Pesado, mesmo, é ter que sair de casa, ir ao INSS, tratar da licença médica. Cadê a vaga para deficiente? Cadê a rampa para cadeira de rodas?

“É um aprendizado, até pro ajudante da cadeira”, opinou o marido de Jamilla, Renier Serra.

Se serviu de alguma coisa para o casal, foi despertar a consciência.

“No dia que precisa, você começa a se colocar na pele do outro, do cadeirante que realmente passa a vida numa cadeira de rodas”, afirmou Renier Serra.

Por mais que eles queiram superar os obstáculos, acabam presos na eterna dependência ou tentam se libertar no improviso.

As cadeiras de rodas também foram inventadas para dar autonomia aos deficientes, pra facilitar a vida deles. O problema é que nem sempre as vias públicas atendem a essas necessidades especiais e o cadeirante depende de ajuda para tudo. Existe um verdadeiro abismo entre o que eles precisam e nossas cidades oferecem.

“Por esses fatos, as vezes eu escolho comprar pela internet do que ter que ir até a loja”, afirmou Fabíula da Silva Pinto, promotora de vendas.

E quando não há escolha? A Jéssica aprendeu a se virar com as muletas que usa desde os 14 anos, quando uma doença bacteriana atingiu sua medula. Ela tem 23 anos de idade e é fotógrafa profissional.

“Fui ‘bolando’ estratégias no meu dia a dia, pra resolver meus problemas”, contou Jéssica Paula, fotógrafa.
Duras lições de aula prática.

“Ou me lamento porque não posso subir a escada, ou aprendo a subir essa escada. Você não tem muita escolha”, disse Jéssica.

Às vezes, nem há escolha. Para quem não enxerga nada, só uma grande amizade pode ser a saída. Uma escola mantida por uma ONG e pelo corpo de bombeiros de Brasília forma, em média, quatro cães-guias por ano. Parece pouco – acontece que não é todo cachorro que serve pra isso.

“O cão deve apresentar comportamento calmo, passivo... Trabalhador. Trabalhador”, resumiu o sargento Rodrigo Reis, treinador de cães.

E não são todos os deficientes visuais que conseguem arcar com os custos de criar um cachorro: ração, veterinário, vacinas – despesas que podem chegar a R$ 500 por mês.

“Nós pegamos um cadastro, vemos o perfil daquela pessoa, e aí entram várias coisas: altura, peso, se gosta do cão, se tem condições de cuidar bem desse cão de trabalho. Ele precisa ser bem cuidado”, explicou Lúcia Campos, coordenadora do projeto Cão Guia de Cegos.

Não é um adestramento, simplesmente – é um treinamento. Na escola, o cão guia não aprende apenas a obedecer comandos e fazer alguns truques. Ele é ensinado a se concentrar e, sobretudo, a tomar decisões para interagir com o dono dele e fazer a coisa certa.

“Vai guiar uma vida, além da dele, né? É uma outra vida que ele tá guiando”, apontou Paulo Patrício, treinador de cães.

É muito mais do que simplesmente o "melhor amigo".

“É os meus olhos, né? Representa meus olhos”, disse Spencer Miranda, advogado.

Spencer tem 26 anos de idade e já nasceu cego. Há quase uma década ganhou o Happy. O labrador mudou a vida do Spencer: ele ganhou mobilidade, estudou direito, abriu um escritório de advocacia e virou especialista em causas relacionadas a deficiência. Nunca um cachorro combinou tanto com o nome: “Happy”, “feliz” em inglês.


“É uma parceria que só quem tem um cão guia sabe o que é isso”, concluiu Spencer.

Fonte: G1
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