18/08/2015

'Nos uniu ainda mais', diz casal de jovens que tem bebê com Down

Filha do casal de Guarapuava, no Paraná, tem 1 ano e 6 meses.

Mãe descobriu gravidez quando tinha 20 anos e o namorado, 21.


Antes e Depois. Paloma, Douglas e a filha Beatriz (Foto: Paloma Jak/Arquivo pessoal)

Os universitários Paloma Jak e Douglas Leonel não planejavam casar e ter filhos antes de formados. As coisas saíram diferente do esperado. Hoje, 1 ano e 6 meses após a Beatriz vir ao mundo, eles lamentam não ter tido a filha, portadora da síndrome de Down, antes. “Ela nos uniu ainda mais, nos deixou mais fortes. Antes, éramos fúteis", garantem.

Paloma descobriu a gravidez prestes a concluir o curso de educação física e já no primeiro ano de fisioterapia. Ela tinha 20 anos e o namorado, estudante de engenharia civil, 21.

À época, a gestação não foi o que mais assustou o jovem casal de Guarapuava, na região central do Paraná. O que mais preocupou os pais foi o diagnóstico da síndrome. Na idade de Paloma, uma em cada 1.000 mulheres costuma ter um bebê com Down, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).

A síndrome


Durante a fecundação, os genes do homem e da mulher se fundem para criar uma nova vida. O normal é que cada célula formada a partir desta união tenha 46 cromossomos, 23 da mãe e 23 do pai. Na síndrome de Down, acontece um acidente durante essa multiplicação de células.


Em vez de 46 cromossomos, surgem 47: três cópias do cromossomo 21, em vez de duas. Entre as características mais frequentes dos portadores da síndrome, estão os olhos amendoados e um atraso no desenvolvimento intelectual, que varia muito de criança pra criança.

Olhos amendoados e baixo tônus muscular são características dos portadores da síndrome de Down (Foto: Paloma Jak/Arquivo pessoal)

O casal conta que soube da síndrome de Down ainda durante a gravidez. “Em um dos ultrassons, o médico disse que o bebê não estava se desenvolvendo direito, que havia algo errado porque estava muito pequeninho”, conta Douglas. Então, os jovens foram até Curitiba para fazer exames mais específicos.

Primeiro, Paloma fez a chamada translucência nucal, uma ultrassonografia que é feita entre a 11ª e 13ª semana de gravidez. Neste período, a análise da quantidade um líquido que fica na nuca e de um ossinho do nariz do feto ajudam a apontar as probabilidades de uma alteração genética.

Em um dos ultrassons, médico disse ao casal
que o bebê não estava se desenvolvendo direito

(Foto: Paloma Jak/Arquivo pessoal)

“Quando saiu o resultado da translucência, o médico nos disse que era quase certo que a nossa filha tinha síndrome de Down”, conta Douglas.

Para ter certeza, geralmente, é feita uma análise do número de cromossomos, o material genético presente nas células do feto.

O material pode ser retirado por uma punção da placenta, a partir da 10ª semana; mais tarde, entre a 15ª e a 18ª semana, com a pulsão do líquido amniótico dentro do útero da mãe, como no caso de Paloma.

Dias após a namorada fazer o exame, Doulas estava se arrumando para ir à faculdade quando o celular tocou. Era o médico. "Ele me disse que no exame constava que a Bia tinha síndrome de Down”, lembra o pai. O estudante relata ainda que Paloma ficou em choque ao saber.

Então, os dois, que sabiam muito pouco sobre a trissomia 21, decidiram pesquisar mais sobre a síndrome. “O que me deixou mais tranquila foi encontrar várias histórias em que os portadores conseguem, sim, ter uma vida normal. Eles estudam, trabalham, têm amigos e relacionamentos amorosos como qualquer outra pessoa”, explica a mãe.

Síndrome de Down foi diagnosticada ainda durante a gravidez (Foto: Paloma Jak/Arquivo pessoal)

A todo vapor


Depois de quase nove meses, Bia nasceu – poucos dias depois da formatura de Paloma – com quase 2,5 kg e 44 centímetros. “Quando peguei a minha filha no colo, travei. Foi a partir daí que a minha ficha caiu. Ela veio no melhor momento”, relata o pai, que assistiu ao parto inteirinho sem passar mal.


Desde o nascimento da filha, Paloma mora na casa da família de Douglas. Os jovens, que ainda estão na faculdade, também trabalham e planejam ter um apartamento só para eles e para a filha.

O tempo que sobra na vida corrida dos dois é dedicado para a Bia, que também é o xodó dos avós, dos tios e dos amigos dos pais.

Além dos estímulos que recebe em casa, da família, a pequena faz fisioterapia, terapia ocupacional e vai à fonoaudióloga. Sem contar a escola, que ela passou a frequentar há duas semanas.

Apesar de estar a todo vapor, Beatriz não anda e não fala ainda. Ela vai a uma escola regular, mas estuda com bebês um pouco mais novos porque não caminha.

Os pais contam que o que atrasou o desenvolvimento da filha foi um defeitinho no coração, recorrente em crianças que têm Down. Alguns defeitos cardíacos têm pouca importância e podem ser tratados com medicamentos. Entretanto, há outros que requerem cirurgia. A Bia precisou passar por uma operação aos cinco meses de idade.

Um dia, uma mulher que eu nem conheço viu a foto da Bia no meu celular e disse 'É sua filha? Deve ser difícil esperar um bebê e ele vir assim"

Paloma Jak, mãe

Depois da intervenção cirúrgica, os jovens contam que as coisas só melhoraram. “Antes, era difícil amamentar. Ela cansava já nas primeiras mamadas, chegava a suar. Depois, ficou fácil. Tanto que a Beatriz mama até hoje, quatro vezes por dia”, conta a mãe.

Agora, a menina também tem mais fôlego para brincar.

"As professoras da escola têm certeza que ela vai ser uma artista. A Bia ama atividades que envolvam música, ela ama os sons. Em casa, a Bia para tudo o que estiver fazendo quando ouve a música do Jornal Nacional", revela Paloma.

O preconceito


Entretanto, apesar de ver a filha se desenvolvendo bem, a jovem teme que Beatriz sofra preconceito algum dia. Ela, como mãe, conta que já sentiu na pele a ignorância das pessoas.


"Um dia, uma mulher que eu nem conheço viu a foto da Bia no meu celular e disse ‘É sua filha? Deve ser difícil esperar um bebê e ele vir assim, né?’”, lembra Pâmela.

Entretanto, segundo a jovem, ela e o namorado estão dispostos a preparar a filha para situações assim.Colocá-la em uma escola regular, de acordo com Paloma, é uma das tentativas de fazer com que ela se acostume com todos os tipos de gente.

"Sugeriram que eu matriculasse a minha filha em uma escola só com crianças especiais, mas e quando ela crescer e tiver que ir à farmácia sozinha? Lá não vai ter só gente com Down. E aí? Ela saberia lidar com os outros?", questiona Paloma.

Os dois jovens dizem que querem ver a filha feliz e que, para isso, fazem e sempre farão o possível. "Nós mudamos por causa dela, nos tornamos pessoas melhores. Faríamos tudo de novo. O mínimo que podemos fazer para retribuir é fazê-la sempre feliz. Vamos fazer o que for necessário para que ninguém atrapalhe sua felicidade", afirmam os jovens.

Fonte: G1 
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