14/02/2015

Tetraplégico, campeão do Once Caldas teve sonho interrompido

Luis Fernando Montoya, treinador que venceu a Libertadores pelo time colombiano em 2004, perdeu no mesmo ano os movimentos do pescoço para baixo após levar dois tiros na coluna

Luis Fernando Montoya
Imagine chegar ao ápice de sua carreira com apenas quatro anos de trabalho. Ser reconhecido em todo o seu país como uma das principais figuras de sua área de atuação. Concorrer à glória máxima de sua profissão. E dias depois, ver tudo isso desabar por uma tragédia que mudaria para sempre a sua vida. Esse é o resumo da história de Luis Fernando Montoya, técnico que comandou o surpreendente Once Caldas no título da Libertadores de 2004, superando Santos, São Paulo e Boca Juniors, e, dias depois de disputar o Mundial Interclubes, ficou tetraplégico após levar dois tiros.

Foi em 22 de dezembro de 2004 que a vida de Montoya mudou. Ao tentar defender a mulher de um assalto em sua casa em Caldas, na Colômbia, foi alvejado com dois disparos na coluna vertebral. O diagnóstico: quadriplegia incurável. A princípio, a própria sobrevivência era improvável, segundo os médicos. Quando ficou fora de perigo de morte, ele ouviu que teria que passar o resto de seus dias dependente de um ventilador mecânico e de um marca-passo para viver, e dificilmente conseguiria falar. Hoje, aos 57 anos, Luis Fernando vive, fala, não depende de aparelhos e consegue leves movimentos com mãos e pés.

"Temos que aceitar e considerar que o passado já passou", diz Montoya, que ainda vive na mesma casa de campo, em entrevista ao Terra, por telefone. "Aceitar que agora a vida é totalmente diferente para mim e levá-la bem. Tenho que pensar em minha recuperação. Temos que lutar até o final, com sentimento."

A determinação para superar sua deficiência fez com que o homem apelidado de "Profe" –abreviação de "professor", pelo conhecimento e paixão pelo futebol – ganhasse outra alcunha, hoje até mais relacionada com ele: "El Campeón de la Vida". A melhora contínua e a incapacidade de desistir de Montoya se tornaram inspiração para todas as pessoas que vivem em condições semelhantes na Colômbia. Mas ele minimiza o fato de ser um exemplo a ser seguido.

"Eu sempre considero que tanto os futebolistas quando os diretores dos clubes, e todo o pessoal que tem a ver com futebol, têm que dar um bom exemplo ao público. Têm que sempre fazer o melhor. Porque é todo um país, é todo o futuro de um país que estão representando", afirma o ex-treinador, que não se vê como uma daquelas figuras "super-heroicas" que comumente são criadas no esporte. Hoje, ele encara seu "acidente", como costuma se referir ao fato que mudou sua vida, apenas como mais um episódio. Algo que poderia ter acontecido com qualquer um.

Mas é nítido que Luis Fernando se sente bem mais à vontade quando o assunto é sua grande paixão: futebol. Ainda que nos últimos tempos tenha se afastado um pouco do meio – mesmo após a tragédia de 2004, ele chegou a contribuir com análises e artigos para publicações esportivas da Colômbia –, o ex-técnico fala com desenvoltura sobre o jogo, e deixa claro que suas limitações são apenas físicas. Mentalmente, ele é o mesmo "Profe" de sempre.

A atual geração do futebol colombiano? "São jogadores muito bons, mas o mais importante é que possuem o conceito de responsabilidade e compromisso de defender as cores do país". Acha que o futebol sul-americano está atrás do europeu? "Não podemos nos comparar. Somo sul-americanos, nosso futebol é talento, alegria, criatividade, algo que encanta a torcida. Os europeus são mais rápidos e pulsantes, mas contratam os talentos sul-americanos para que deem alegria ao jogo".

Sobre o futebol brasileiro, Montoya é só elogios. Ele tem lembranças boas das vitórias sobre Santos e São Paulo naquela Libertadores de 2004, e não consegue definir qual adversário foi mais difícil na campanha. "O Santos era um time bem talentoso, com craques como Robinho, Diego... e o São Paulo com um grande técnico como Cuca, muito bem dirigido, e com jogadores do nível de Luís Fabiano e Rogério Ceni. Para mim seria impossível escolher um. Mas os dois times me trataram muito bem, e me apaixonei pelo Brasil", recorda.

Apesar de lidar bem com sua condição atual, Montoya não nega que seus sonhos no futebol foram interrompidos bruscamente. Em 2004, o então treinador tinha apenas quatro anos de carreira – começou em 2001, no Atlético Nacional, e estava desde 2003 no Once Caldas, tendo sido já na segunda temporada campeão colombiano e da Libertadores. Sem ter sido jogador profissional, ele trilhava um caminho que poderia ter culminado em dirigir sua seleção em uma Copa do Mundo.

"Sempre sonhei primeiro em ganhar a Copa Libertadores. Depois disso, pensava em ir para a Europa ou algum país da América do Sul, como Argentina ou Brasil, que me chamavam muito a atenção. Queria aprender mais, atualizar meus conceitos, valorizar tudo que fiz, para então ter as condições de assumir mais tarde uma seleção colombiana. Era um plano que tinha", admite.

Sua última partida como técnico, porém, foi a derrota nos pênaltis para o Porto na final do Mundial de 2004, e hoje suas motivações são outras. A última conquista de Luis Fernando foi voltar a dirigir, sozinho, em um carro especialmente adaptado. Para um homem que já ergueu o cobiçado troféu da principal competição sul-americana, o que o move atualmente são esses pequenos avanços – além dos detalhes da vida que podem passar despercebidos para quem não tem a visão de mundo que hoje tem Montoya.

"(O que me faz viver) é a motivação dar o exemplo ao meu filho, pode dialogar, falar com ele. É poder escutar a minha esposa. Graças a Deus estou vivo, e isso é o mais importante".

Luis Fernando conversa com jornalistas japoneses durante o Mundial Interclubes 2004, dias antes de ser baleado
Foto: Toru Yamanaka / AFP

Montoya ganhou o apelido de "Campeão da Vida" por sua luta incessante pela recuperação
Foto: Gerardo Gómez / AFP

Fonte: Terra
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