20/10/2014

A dança sem fronteiras


A dança é, antes de tudo, uma manifestação intrínseca ao ser humano. Sendo assim, por que haveria de existir qualquer espécie de limitação a essa forma de arte? Pensando nisso e com a intenção de romper as barreiras que separam as pessoas da dança é que a coreógrafa, bailarina, atriz e pesquisadora Fernanda Amaral criou, em 2010, o Dança sem Fronteiras.

Em três anos, o projeto cresceu, foi convidado a participar de vários eventos, como a virada inclusiva de 2012, no MAM, e até virou curso de Extensão Cultural na SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco. 

As aulas do curso, que tiveram início em agosto e vão até 3 de outubro, têm como objetivo preparar e incentivar profissionais para trabalharem com o movimento e a dança de cada participante acolhendo a diversidade, assegurando que ninguém fique isolado e que todos possam participar igualmente do processo criativo.

Fora da SP Escola de Teatro, o trabalho de Fernanda também aponta férteis possibilidades. Recentemente, ela foi selecionada em um Edital da Prince Claus Fund for Culture and Development (Holanda) para aplicar seu projeto em uma escola pública de São Paulo. “Fernanda Amaral é uma das mais engajadas dançarinas e educadoras do Brasil. Ao longo dos anos, ela tem batalhado para levar o mundo da dança às pessoas com deficiência”, observa a fundação.

O Edital garante verba para que ela aplique seu projeto na Escola de Tempo Integral Alfredo Paulino Endereço, no Alto da Lapa, com os estudantes do ensino fundamental. “Já estamos na escola fazendo um projeto piloto. A ideia é realizar uma residência artística, não um simples projeto de arte-educação, mas sim levar efetivamente a arte para dentro da escola. É importante que as crianças tenham contato com o processo artístico. Esse conceito tem tudo a ver com a SP Escola de Teatro e a forma como ela surgiu, com o Satyros e os outros grupos da Praça Roosevelt”.

A residência de Fernanda começará em outubro deste ano e se estenderá até novembro de 2014, com quatro horas semanais de atividades. Ela trabalhará com as crianças, que assistirão a ensaios, terão contato com bailarinos – dentre os quais vários são portadores de deficiência física – e com uma forma de dança contemporânea não muito conhecida por elas, basicamente movida por improvisação.

Durante esse tempo, pequenos documentários registrarão o processo. E, a cada três meses, serão organizadas apresentações da companhia para as crianças e os pais e das crianças para os pais.

“Focamos na habilidade, no que cada um pode trazer para o projeto. Uma das coisas que despertaram a curiosidade da Prince Claus Fundo foi sobre qual seria o tema e como o desenvolveríamos. A história não chega pronta, ela vai nascendo a partir de quem está no projeto”, explica Fernanda.

A artista contará com dois profissionais para realizar a residência: um assistente, o bailarino profissional Beto Amorim, e uma assistente-aprendiz, Lucinéia Filipe dos Santos, que tem baixa visão e participa de seu curso na SP Escola de Teatro. 

Trabalhar com habilidades mistas, para Fernanda, é um dos fatores mais instigantes nesse processo. “Tento buscar a fisicalidade, trabalhar a individualidade e deixá-la transparecer no trabalho coletivo. Isso também é o que faço no curso de Extensão Cultural. Muitas vezes, os alunos chegam à conclusão de que quanto mais pessoas diferentes estiverem no curso, mais elementos eles terão para criar e mais interessante ficará a composição”, ressalta.

Além da dança, o projeto contará, esporadicamente, com a participação de um músico que vai interagir com as crianças e um artista plástico que vai desenhar o processo e incentivar as crianças a registrarem suas impressões através de desenhos.

“Este é meu trabalho há mais de 20 anos. A diversidade que traz a riqueza e a identificação do outro. A arte é isso, algo que te faz refletir, que propõe novos caminhos. Se você vê uma arte com a qual você pode se identificar, você percebe que pode fazer também. Isso muda a sociedade, cria novos parâmetros”, observa a coordenadora.

Proporcionar uma espécie de inversão de papeis é uma das consequências de se trabalhar no terreno da diversidade. Dessa forma, mais que conhecer, coloca-se na própria posição do outro, numa troca que proporciona grande aprendizado às duas partes, e não apenas ao deficiente. “É interessante não só para o deficiente, mas para todos. Por exemplo: no curso eles me pedem para trazer vendas, para saber como é ficar cego. E, enquanto o cadeirante não quer usar a cadeira de rodas, os demais fazem questão de experimentar, fazem fila, revezando”, comenta Fernanda.


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