21/09/2014

Professores dão aulas em domicílio para 82 alunos enfermos e atendem outros 1.809 internados

Unidades como o Hospital Jesus, em Vila Isabel, contam com salas especiais para ensino. Pedagoga diz que serviço é dever

POR SIMONE CANDIDA


RIO — Da educação infantil até o 1º ano do ensino fundamental, Ana Júlia de Jesus Coelho, de 8 anos, enfrentava um grande sofrimento para ir até a escola. A simples caminhada de casa ao ponto de ônibus, a espera do coletivo sob sol forte e a viagem de 15 minutos até a chegada à sala de aula causavam-lhe muita dor, e, nos dias mais quentes, desmaios. Portadora de ictiose congênita (doença que provoca graves descamações na pele), a menina, que não pode se expor ao sol, vinha acumulando faltas pela dificuldade de comparecer ao colégio. E a família praticamente já havia desistido dos estudos de Ana Júlia, moradora de Nova Sepetiba, na Zona Oeste.


A solução encontrada já atende 82 crianças e adolescentes que atualmente recebem atendimento pedagógico em casa. No início deste ano, Ana Júlia passou a ter aulas particulares, um serviço oferecido pela Secretaria municipal de Educação desde 2002, por meio de convênio com o Instituto Helena Antipoff, responsável pela política de educação especial do município. No ano passado, a ação beneficiou 73 estudantes impossibilitados de ir a uma instituição de ensino, 19 a mais que em 2012. O número de estudantes enfermos que usufrui do serviço ainda é pequeno, porque muitos pais não sabem que seus filhos em idade escolar têm o mesmo direito à educação que qualquer criança.


PROGRESSO RÁPIDO

Segundo a diretora do Instituto Helena Antipoff, Kátia Nunes, 31 professores da rede municipal estão cedidos para atuar no atendimento especial. Tanto no serviço domiciliar quanto no hospitalar, explica, é necessário um laudo médico atestando a impossibilidade temporária ou permanente do paciente de frequentar a escola.

— Elaboramos estratégias para permitir o acompanhamento pedagógico. No caso da classe hospitalar, um dos principais objetivos é garantir a manutenção do vínculo do aluno com sua escola municipal — diz a diretora, lembrando que alunos de escolas fora da rede também podem ser atendidos, caso o serviço esteja disponível no hospital em que estiverem internados.

A Secretaria municipal de Educação informa que, até agosto deste ano, os professores atenderam 1.809 alunos em nove hospitais e casas de apoio na cidade, 335 somente em julho. Em 2013, foram 2.581 atendimentos.

Desde que começou a receber o atendimento especial, Ana Júlia, conseguiu ser alfabetizada e segue aprendendo as matérias do 2º ano do ensino fundamental com o auxílio de uma professora da rede municipal. Tem evoluído tanto que já se arrisca a ajudar a irmã mais nova com as lições de casa.

— Para ela foi um alívio e para mim, também. Como Ana Júlia acorda sempre com feridas pelo corpo todo, preciso de tempo para dar banho, colocar pomadas e trocar a roupa com cuidado. E chegávamos sempre atrasadas. Fazíamos o sacrifício porque ela queria muito estudar — conta a desempregada Maria das Graças Costa de Jesus, 54 anos, responsável pela criação da neta.

Somente na região da Zona Oeste, 10ª CRE, a professora de Ana Júlia, Virgínia de Oliveira Bezerra Ribeiro, atende a outros 17 estudantes, entre 4 e 28 anos, com doenças como câncer, osteogênese imperfeita (doença dos ossos de vidro), entre outras que impedem a ida à escola.

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— Mesmo sem aulas diárias, Ana Júlia acompanha plenamente a sua série. O objetivo é que os alunos não fiquem sem aulas, pois educação é para todos — diz Virgínia, que tem 20 anos de magistério e há dez faz atendimento itinerante domiciliar.

Para a educadora Mírian Paura, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), as aulas em domicílio têm um outro aspecto positivo:

— O aluno está num ambiente que conhece, onde se sente mais à vontade, o que pode facilitar o aprendizado.

Nos casos em que os alunos estão internados em hospital, a solução é oferecer aulas nos próprios leitos, ou em salas adaptadas junto às enfermarias, um serviço batizado de classe hospitalar.

No Brasil, a primeira unidade de saúde a instalar essas salas foi o Hospital Municipal Jesus, em Vila Isabel, em 1950. De acordo com dados do MEC, em 2010, 1.279 estudantes de nove escolas do país estudaram desta maneira. Desses, apenas 24 eram do Estado do Rio. Em 2013, foram 2.846 matriculados em 82 escolas e o Rio foi o segundo estado que registrou mais alunos em classes hospitalares: 507 estudantes de nove instituições. O Rio Grande do Norte lidera a lista, com 631 jovens e crianças de sete escolas.

SERVIÇO É OBRIGAÇÃO, DIZ PEDAGOGA

A professora Eneida Simões da Fonseca, da Uerj, com doutorado em desenvolvimento e educação de crianças hospitalizadas, ressalta que a oferta desse serviço pedagógico não é um favor, mas um dever. Ela lembra que a Lei de Diretrizes e Bases da Educação, de 1996, deixa claro que o poder público precisa criar formas alternativas de acesso à escola para cumprir a obrigatoriedade do ensino básico. Além disso, em 2001, a classe hospitalar tornou-se obrigatória por meio de resolução do Conselho Nacional de Educação.

— Os alunos não podem ter esse direito negado, mesmo que os pais o desconheçam. A escola pode, e deve, se aliar aos pais e exigir da secretaria de educação este serviço — diz a pedagoga, que trabalhou no Hospital Jesus de 1983 a 2008.


Internada desde o dia 5 de setembro no hospital pioneiro nesse atendimento, Letícia Silveira, de 9 anos, passou a ficar menos ansiosa com o tratamento para glomerulonefrite difusa aguda quando começou a ter contato com outras crianças na classe hospitalar, onde aprende geografia, matemática e português.



— Letícia já tinha ficado internada aqui ano passado, com pneumonia, e conhecia as professoras. Ela fica mais animada e acho que até ajuda na recuperação — acredita a mãe de Letícia, a merendeira desempregada Lilian Silveira Farias Gonçalves, de 35 anos, moradora de Duque de Caxias.

Elizabeth Leitão Ramos Luiz, de 56 anos, é professora no Hospital Jesus desde os anos 80. De manhã, as aulas são ministradas nos leitos, para facilitar a rotina médica. À tarde, os estudantes que têm condições de sair da cama vão para a classe hospitalar. O conteúdo, adaptado, segue o currículo da rede municipal. Quando necessário, a professora aplica provas e testes, e o resultado é enviado para a escola do paciente.

— Nosso trabalho é pedagógico, mas temos que estar atentos ao estado de saúde do aluno e fazer adaptações. Se um paciente está estressado, podemos dar a ele um trabalho lúdico, mesmo que esteja no 9º ano — diz Elizabeth.

Fonte: O Globo
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