07/07/2014

Avançam testes com prótese feita em impressora 3D


Ricardo Cesar Coura tem 36 anos e trabalhava em uma metalúrgica de Santana de Parnaíba/SP. Em 30 de dezembro de 2013, depois de 12 anos da atividade, ele perdeu as duas mãos em um acidente com uma prensa. Hoje ele vai semanalmente ao Instituto de Ortopedia e Traumatologia do Hospital das Clínicas (IOT-HC), em São Paulo/SP, como o primeiro paciente a testar, no Brasil, com acompanhamento, uma mão mecânica confeccionada em plástico por uma impressora 3D. 

Na edição anterior - Nº 97 - da Revista Reação (março/abril), falamos da utilização dessas impressoras e das possibilidades de uso para beneficiar pessoas com deficiência. Agora fomos conferir os progressos de Ricardo e da equipe que trabalha no projeto. Afinal, em casos como esse, a engenharia e a terapia ocupacional precisam ter um casamento perfeito: "Produto, sem processo em saúde, não faz sentido", afirma a física Maria Elizete Kunkel, professora e pesquisadora do curso de Engenharia Biomédica da Universidade Federal do ABC (UFABC), parceira do IOT nesse desenvolvimento. 

O material escolhido para a confecção é relativamente simples: além do ABS (termoplástico), são usados: linha de pesca (cabo de aço), elástico comum e borracha. Atualmente, o custo estimado é de R$ 400, isso sem contar com a impressora, que ainda é cara, por volta de R$ 15 mil para importação. Um professor da UFABC, Nilo Segundo, criou uma impressora 3D de baixo custo e a equipe vai usá-la também para o projeto, o que diminuirá o preço final da prótese. 

Maria Cândida de Miranda Luzo, da Terapia Ocupacional do IOT, acredita que por serem materiais já conhecidos, o plástico, inclusive, tem várias aplicações em centros cirúrgicos, não haveria necessidade de uma aprovação especial para a utilização futura da prótese pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). 

O modelo original seguido por aqui é da África do Sul. A partir dele, surgiu uma comunidade nos Estados Unidos em que interessados fazem alterações e deixam em aberto na internet com fotos e relatos de toda a evolução. Esse material está sendo aproveitado nas pesquisas. 

Vantagens da Utilização

Além do aspecto financeiro, que facilitaria inclusive as doações pelo SUS, a equipe vê outros pontos positivos no aperfeiçoamento do modelo mecânico feito por impressora. Um deles, de acordo com a terapeuta ocupacional Mariana Camargo, é a possibilidade de colocação muito rápida depois da amputação, de forma que o paciente já possa sair do hospital com o modelo. "Tem muito paciente que desiste de usar a prótese convencional porque demora muito", afirma a terapeuta. 

No caso de Ricardo até que o processo demorou, os testes só começaram em fevereiro deste ano. Mariana explica que uma vez o modelo ajustado, prevendo as várias necessidades, será muito mais fácil. "Tivemos que ajustar o tamanho dos dedos e coisas assim, mas a gente já tendo uma ideia de como isso funciona, vamos conseguir produzir muito mais rápido para outros pacientes, será muito útil eles conseguirem colocar cedo essa prótese, até para eles aderirem melhor à prótese definitiva se quiserem", considera. 

Na visão da equipe, em relação à prótese mioelétrica, o modelo é muito mais leve e não demanda energia para funcionar. Também é mais leve do que o modelo mecânico convencional. Por causa disso, sua adaptação é mais simples, não demanda tanto esforço. A inspiração é de um modelo de 1830, fabricado por um dentista, totalmente em madeira: "A ideia é continuar usando a construção mecânica, porque ela funciona muito bem, mas aliada às novas tecnologias de hoje. Nós podemos mudar o design, o material que está sendo usado e podemos alterar a forma como testamos isso, com o acompanhamento do pessoal da terapia ocupacional, que dá um feedback bom no sentido de saber o que eu posso modificar na prótese que vai ajudar o paciente em si", garante Elizete.

Testes e expectativas

O modelo vai permitir que Ricardo segure talheres, escove os dentes, use uma caneta, além de ponteira para digitar. "Eu espero que esteja tudo certinho, ajustado para ver o que dá para a gente fazer. A expectativa é das boas porque é uma coisa que vai ajudar muito. Vou experimentar, tem que ver a adaptação, se a gente se acostuma... vou tentar", diz o paciente animado. 


Elizete chama a atenção para a situação dos amputados no Brasil, que esperam até mais de um ano para receber uma prótese após o acidente e, quando essa se danifica, voltam a ser amputados porque não recebem uma segunda. "Não existe justificativa para que o Brasil esteja tão atrasado em relação ao desenvolvimento de soluções para membro superior, visto que para membro inferior existem muitas possibilidades no mercado", argumenta. 


A prótese agora desenvolvida será em breve testada por um grupo de crianças. Essa é uma das vantagens, à medida que a criança cresce, a peça pode ter suas partes reimpressas e adaptadas. "Por conta dessa questão, geralmente uma criança passa toda a infância sem prótese, esperando chegar a uma idade em que ela não cresça mais para receber uma", diz a pesquisadora. 



O contato com ela pode ser feito através do e-mail: elizete.kunkel@ufabc.edu.br



O site do Grupo Bones, a que ela pertence na universidade, é: 




Vem aí uma entidade para amputados !

Está em fase de criação a Associação Brasileira de Apoio Tecnológico aos Amputados, com sede em Promissão/SP. Seu objetivo é ser um centro de referência e excelência no desenvolvimento e na pesquisa de novas tecnologias que atendam à pessoa com deficiência em membros superiores. 


A iniciativa é de Margareth Maria Rego, cujo filho sofreu amputação parcial de mão devido a um acidente de trabalho. Após o acidente, ela passou a estudar as dificuldades dos amputados e já foi a Brasília/DF várias vezes conversar sobre a aquisição de próteses pelo SUS. Maria Elizete Kunkel, da UFABC, ficará responsável pela parte de pesquisa e desenvolvimento da entidade. 

Existe um grupo no facebook que trata do tema, com quase 2 mil pessoas, chamado: "Amputados são diferentes, deficiente é o Sistema". 

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