02/05/2014

Caminhos interrompidos

Famosa por seu planejamento urbano, Brasília exibe calçadas cheias de falhas, uma sinalização específica quase ausente e um conjunto ínfimo de profissionais para atender os mais de 500 000 deficientes que moram no DF

Entorno do Estádio Nacional: para entrar 
na arena, só passando pelo gramado ou 
pelo estacionamento (Foto: Roberto Castro)
Inaugurada dois anos antes de Brasília, a 308 Sul foi, desde o seu início, considerada o modelo ideal para as outras superquadras do Plano Piloto. Com paisagismo de Burle Marx, invejável infraestrutura de lazer e espaços bem definidos, ela até hoje recebe turistas que chegam para conhecer, na prática, o projeto urbanístico de Lucio Costa. Existe um ponto, no entanto, em que a 308 Sul está longe de ser referência positiva. Os moradores mais idosos e, especialmente, os 25 deficientes físicos que ali habitam encontram muitas dificuldades de locomoção. O dia a dia deles é marcado pelo desafio de encarar calçadas desniveladas e quebradas, sem rampas que facilitariam o deslocamento de quem anda em cadeira de rodas. Chegar à Igreja Nossa Senhora de Fátima, por exemplo, tornou-se uma via-crúcis. “A área é impraticável para pessoas com essas características. Isso é modelo para quem?”, reclama Edmilson Magalhães Filho, prefeito da quadra. Para vários deficientes, resta atravessar muitos trechos pelo asfalto, dividindo o espaço com os carros.

Infelizmente, as adversidades não ficam restritas a essa zona simbólica de Brasília. Nem são exclusivas dos cadeirantes. Em todo o Distrito Federal faltam rampas, meios-fios rebaixados, semáforos sonoros e pisos táteis. Além disso, são escassas as informações em braile, sistema de leitura para cegos, e raros os profissionais disponibilizados para ajudar os cidadãos surdos por meio da língua brasileira de sinais (Libras). Em resumo, não estamos prontos para dar aos deficientes físicos as condições mínimas de deslocamento. E, ao contrário do que muitos acreditam, essa parcela da população é bem grande. De acordo com o Censo de 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), existem 573.800 indivíduos no DF com algum tipo de deficiência ou cerca de 20% dos moradores da capital. Nesse universo, 365.568 pessoas, ou seja, 63,71%, sofreram perdas visuais sérias. Em seguida, vêm aquelas com dificuldades motoras. Elas totalizam 103.399, ou 18,02% do conjunto. As estatísticas ainda relacionam 82.685 deficientes auditivos (14,41%) e 22091 habitantes (3,85%) com déficit intelectual.


Para saber como membros dos três grupos majoritários de deficientes têm a vida afetada pela formatação da capital, VEJA BRASÍLIA realizou um teste com um representante de cada uma dessas limitações físicas. Eles percorreram três roteiros no centro da cidade, muito frequentados por moradores e turistas (confira os detalhes no quadro acima). Todos usaram como ponto de partida a Rodoviária do Plano Piloto e seguiram para sentidos diversos. O primeiro, via Esplanada dos Ministérios, tinha como destino a Praça dos Três Poderes. No segundo, o traçado cortava o Setor Comercial Sul e acabava no Shopping Pátio Brasil. O Setor Hoteleiro Norte e o Estádio Nacional estavam na rota do terceiro.

A saída inaugural foi com Izana Barbosa, funcionária pública que perdeu o movimento das pernas após um acidente de carro há dezessete anos. Na época, iniciava carreira como modelo e estava grávida de dois meses. Mesmo com a grave lesão na coluna, não houve problema com o bebê, que nasceu saudável. Hoje ela não reclama de sua condição, mas admite que a cidade ainda tem muito que melhorar. “Para evitar as ruas, saio sempre de carro e desço próximo de onde quero chegar”, explica Izana, proprietária de um veículo automático com freio e acelerador manuais. Durante o teste, obstáculos, como carros mal estacionados, impediram a livre circulação no Setor Comercial Sul. O trajeto até a Praça dos Três Poderes, que leva meia hora para um pedestre comum, durou o dobro do tempo para a cadeirante. Entrar em pontos turísticos como o Museu da Cidade ou o Espaço Lucio Costa, apenas se usasse as escadas — com a ajuda de outras pessoas, claro. Ao seguir para o Estádio Nacional Mané Garrincha, os mesmos problemas de infraestrutura. A cereja do bolo? Bem adaptada para receber deficientes em suas dependências internas, nossa arena da Copa não oferece calçadas de acesso do lado de fora. Izana terminou o passeio com sua cadeira enlameada.

As histórias de superação são marcantes na vida dessas pessoas. Cego desde o nascimento, devido a uma disfunção genética, o técnico em informática Leonardo Moreno já caiu e levantou sozinho muitas vezes por não saber onde estava pisando. Para facilitar os deslocamentos, sua família se cotizou e comprou um cão-guia, um labrador que custou 25000 reais. Ao lado do animal, o rapaz estava consciente de que tanto o trajeto pela Esplanada quanto o do estádio seriam obstáculos difíceis em sua condição. Dependo dos motoristas para que me avisem e parem para eu atravessar a rua. Algumas vezes, tive de esperar mais de quarenta minutos”, diz Moreno. Ao cruzar o Setor Comercial Sul, a dificuldade a ser vencida era o desrespeito dos frequentadores da região. Uma vergonha.

Mesmo para quem enxerga e anda sem problemas não é fácil se deslocar pelo Plano Piloto. No trajeto realizado por Renata Rezende, professora de Libras no Instituto Federal de Brasília e surda desde os 4 anos em decorrência de uma meningite bacteriana, a acessibilidade ficou comprometida de outra forma: pela falta de comunicação. Por não ser oralizada, Renata não faz leitura labial e sofre para ser atendida em instituições públicas e privadas. Na Rodoviária, após muita mímica para explicar no guichê de informações que gostaria de ir à Praça dos Três Poderes, desistiu. Na Feira da Torre, o mesmo ocorreu na praça de alimentação. Passeios culturais, nem pensar. “Só há intérpretes em eventos especialmente voltados para os surdos. Ao resto, não temos condição de comparecer”, lamenta Renata, em tradução feita por Lenilson Costa, especialista que a auxilia em locais abertos.

O panorama é igualmente desalentador quando essas pessoas precisam usar o transporte público. Embora o número de ônibus com entrada especial para deficientes tenha saltado de 950 para 3000 nos últimos nove meses, poucos cadeirantes se beneficiam dos novos veículos. Quando se arriscam, é comum ouvirem de condutores que o elevador está quebrado ou que eles não sabem operar o maquinário. No metrô, a estrutura também existe e, nesse caso, funciona bem. Mas os trens ainda são evitados por grande parcela de moradores com deficiência. Como os vagões lotam em horários de pico, eles se ressentem de atrapalhar o fluxo e sofrem com a falta de assistência dos usuários nesses momentos.

Na comparação com outras metrópoles, fica ainda mais evidente o descaso de Brasília, e do DF, com o público deficiente. Salvador, também sede de uma área considerada Patrimônio da Humanidade, passou por uma série de modificações, em 2013, para tornar as atrações do Centro Histórico acessíveis a qualquer visitante. Atualmente, a região do Pelourinho tem calçadas com rampas e corrimões, ruas revestidas em pedras niveladas e meios-fios rebaixados. Fora do Brasil, Paris talvez seja a maior referência. Lá, existem bairros inteiros preparados para receber pessoas com qualquer problema físico. Antes de sair de casa, o deficiente pode se informar sobre mais de 1600 pontos turísticos com equipamento e acessos específicos e, também, sobre linhas de transporte com facilidades.

Admitindo o quadro desfavorável, setores do governo se movimentam para alterar essa realidade. Desde o ano passado, a Secretaria de Justiça, Direitos Humanos e Cidadania (Sejus) implementa o programa Viver sem Limites, que reúne 35 projetos voltados aos deficientes físicos. Um dos carros-chefe é a Central de Intérpretes, na qual cinco especialistas em Libras se esforçam para auxiliar mensalmente cerca de 1000 pessoas com problemas auditivos. Além do atendimento pessoal e via redes sociais, a instituição dispõe de um carro para acompanhar os deficientes em hospitais e fóruns. Outra iniciativa é o disque-acessibilidade. Ao ligar para o número 2104-1173, pode-se denunciar qualquer espaço público ou privado que não seja adaptado. No âmbito turístico também há novidades. Apesar de ter sido cancelado o investimento de 6,3 milhões de reais em acessibilidade nos principais monumentos da capital, a Secretaria de Turismo (Setur) deve lançar ainda neste ano o projeto Pegadas de Brasília. “O objetivo é criar diversos circuitos preparados para esse público”, afirma Luis Otávio Neves, secretário da pasta. Não será até a Copa que transformaremos a capital num modelo de atendimento aos que apresentam necessidades especiais. Mas, com vontade política e colaboração popular, quem sabe faremos a cidade se destacar, num futuro próximo, como bom exemplo de planejamento para todos. Todos mesmo. 
Travessia na Esplanada: numa área sem faixa de pedestres, é preciso usar a força dos braços para não ser atropelado (Foto: Michael Melo)
Rodoviária do Plano Piloto: as plataformas não condizem com os novos ônibus acessíveis (Foto: Michael Melo)
Costa e Renata: conhecer as atrações da Esplanada depende do auxílio de um intérprete particular (Foto: Michael Melo)
Renata e um dos responsáveis pelo guichê de informações da Rodoviária do Plano Piloto: tentativas infrutíferas de estabelecer um diálogo (Foto: Michael Melo)
Moreno ao cruzar uma via onde o Eixo Monumental se encontra com a W3 Norte: insegurança em pleno Setor Hoteleiro (Foto: Michael Melo)
Comércio sobre o piso tátil: os benefícios raros perdem seus efeitos se a população não colabora (Foto: Michael Melo)







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