09/02/2014

Com apoio coletivo Lak lança livro

Descrição da imagem, cópia da página da internet e no meio está a capa do livro “Desculpe, não ouvi!”. Na capa parece um globo de vidro trincado.

Ela tem nome de deusa indiana, é  carioca e publicitária. Lakshmi, mais conhecida como Lak Lobato, agora está tornando real o sonho de ser escritora. Lak escreve no blog “Desculpe, não ouvi!” em que trata sobre suas experiências em ter perdido a audição e como o implante coclear mudou sua vida.

A ideia de transformar a própria história em livro, foi dada por uma jornalista que conheceu Lak ao escrever uma reportagem na Folha de São Paulo, sobre o preconceito que passou na faculdade, produzida em 1999. Depois, dessa conversa ela pensou no nome do blog, que agora se tornará livro, depois de 15 anos desse encontro com a repórter.

Ela decidiu transformar o livro que estava somente em páginas de word, em uma edição física. Para isso, ela utilizou o crowdfunding (financiamento coletivo), pelo site Catarse me. Com financiamento coletivo além de ser possível conseguir grana para bancar um projeto, como também descobrir sua viabilidade. Em quinze dias, a autora conseguiu arrecadar quase 18 mil reais e 183 pessoas contribuíram.  

Em entrevista por email, Lak contou mais detalhes do livro “Desculpe, não ouvi!”. O livro será lançado no dia 15 de março, mas o lugar ainda não foi definido. Divulgaremos aqui o lançamento.  

Você sempre teve vontade de ser escritora, já imaginava isso antes de escrever o “Desculpe, não ouvi!”?
Eu sempre quis ser escritora. Meus pais tem livros publicados e eu sempre gostei da ideia de fazer as coisas que eles faziam. Mas, até ter uns 20 e poucos anos, achava que seria algo mais de ficção ou de poesia.

Transformar minha história em livro foi uma sugestão dada pela jornalista que escreveu a primeira matéria que fiz parte, e foi nessa época que escolhi esse nome “Desculpe, não ouvi!”. Por isso, outro dia comentei que o livro era uma missão comprida, com “o” mesmo, já que levou 15 anos para se tornar uma realidade.

E demorou, principalmente, porque eu queria uma história com final feliz, algo que só consegui depois de realizar o segundo implante coclear, que me devolveu a audição, ainda que artificialmente, há pouco mais de um ano.

O que o blog significa para você?
Inicialmente, era uma forma de unir algo agradável (escrever por hobby), ao útil (informar as pessoas sobre a existência dos surdos oralizados). Demorei muito tempo para considerar um trabalho voluntário, coisa que sinto que ele é hoje em dia.

Mas o blog representa, sobretudo, o relato em tempo real de quem eu me tornei através do implante coclear. Então, ele é tudo: uma fonte de informação, uma maneira de compartilhar experiência, uma forma de conhecer pessoas, histórias que se entrelaçam com a minha e uma ponte para transformar o mundo.

Antes da ideia do livro vi que participou de um TED, como surgiu o convite?
Foi sugestão da socióloga Marta Gil, que abre o vídeo disponível no YouTube (link aqui). Temos alguns amigos em comum e ela se interessou pelo meu blog, começou a acompanhá-lo e achou que eu poderia fazer uma boa palestra no TEDx VilaMadá.

Como foi falar, não apenas para pessoas que têm deficiência auditiva ou surdez?
Foi interessante. Eu sempre soube que a maneira como eu conto a minha história toca as pessoas que vivem situações parecidas, já que tenho uma enorme facilidade de expor sentimentos que a maioria dessas pessoas também tem, mas encontram dificuldade para expressar. Porém, falar com o público ouvinte e fazê-los se interessar por um assunto que não dizia respeito a vida deles, foi um desafio e tanto.

Mas depois, percebi que a mensagem de reencontro com a felicidade que eu passo, apesar de ser específica, tem força suficiente para fazer qualquer pessoa se identificar. Todo mundo gostaria de poder resolver os problemas mais incômodos, seja lá quais fossem.

Você pensou em publicar em alguma editora, ou primeiramente surgiu a ideia de usar um site de financiamento coletivo? Por quê?
Entrei em contato com a editora (é de um conhecido e ele já tinha me feito essa sugestão de publicar por demanda) e pedi um orçamento para uma tiragem 1000 exemplares.

Meu marido deu a sugestão de fazer financiamento coletivo, porque era uma maneira de divulgar o livro antes mesmo de estar pronto e também de perceber se haveria interesse do público em geral pelo livro.

Resolvi unir as duas coisas (orçamento e financiamento) e testar. O sucesso do projeto foi algo realmente surpreendente e, no fim, a tiragem teve que aumentar um pouco.

Você imaginava conseguir em uma semana metade do dinheiro solicitado?
Não, eu jamais imaginaria algo assim ou que atingiríamos a meta em 15 dias. Apesar do valor não ser tão alto e eu saber que haviam pessoas que gostavam dos meus textos, não achei que tanta gente se interessaria de ajudar na publicação de um livro.

No final, encerramos o projeto na metade do tempo previsto – inicialmente 2 meses de arrecadação – com 139% do valor e sob protestos, pois muita gente ainda queria participar e não teve tempo.

O livro terá textos do blog, ou foi desenvolvido em paralelo?
O livro é uma compilação de diversos textos do blog, colocados em ordem cronológica, com algumas alterações de narrativa, para condizer melhor com a linguagem literária, que é um pouco diferente da linguagem de internet. Somado a isso, incluí textos inéditos e um capítulo extra mais didático – escrito em parceria com fonoaudiólogas especializadas – sobre assuntos que abordo no blog: surdos oralizados e implante coclear.

Apesar de ter sido financiado, alguns livros também serão vendidos?
Sim, o objetivo do financiamento coletivo era bancar a produção e a tiragem inicial. Quem ajudou garantiu cerca de 1/3 desta tiragem. No lançamento, ainda teremos 2/3 disponíveis para quem se interessar.

Depois desse projeto tem outros? Quais?
Algumas coisas, mas nada ainda muito concreto que mereça ser mencionado.

Como você enxerga a questão da visibilidade que o blog te deu?
Gosto de saber que há pessoas interessadas no que eu tenho a dizer e de saber que, mesmo que numa escala pequena, meu trabalho ajuda a transformar vidas, informar melhor sobre um grupo e fazer diferença na sociedade, de um modo geral.

Até porque, mais importante do que eu ter visibilidade pessoal, é divulgar um assunto que ainda é pouco falado na mídia: surdez não relacionada a língua de sinais.

Você percebe a importância de ter sido estimulada a aprender a se comunicar em português e não em LIBRAS? Pensando na questão de que seria mais difícil escrever um livro se soubesse apenas LIBRAS?

Quando comecei a escrever, era muito comum as pessoas ficarem irritadas com o fato de eu não falar de LIBRAS e agirem como se eu fosse um monstro por priorizar o foco na oralização e nas próteses auditivas.

Hoje, percebo as mesmas pessoas que antes me criticavam, passaram a ter uma visão mais branda em relação a diversidade dos deficientes auditivos, respeitando que haja um grupo que não se interessa por LIBRAS.


Acho que ser oralizada em português foi importante para eu escrever sobre o tema que escrevo. Mas, se falasse LIBRAS e ela fosse parte da minha vida, acharia uma forma de escrever um livro também, mas sob outro ponto de vista (hehehe).

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