15/10/2013

Sexualidade – Terapia sexual do Lesado Medular

 
Causada por diferentes tipos de fatores: traumatismos (acidentes de trânsito, trabalho, acidentes com armas ou nos esportes) tumores medulares, doenças infecciosas, problemas vasculares e má-formação degenerativa, a lesão medular atinge principalmente adultos jovens (50% dos casos ocorre entre os 15 e os 25 anos) em pleno fluxo das vivências afetivo-sexuais.

Os lesados medulares podem ser classificados quanto ao tipo de lesão, em completa ou incompleta. A lesão completa ocorre quando a medula vertebral foi secionada em uma determinada porção, comprometendo a capacidade sensório-motora abaixo da lesão e modificando a expressão sexual. Na lesão incompleta, não ocorre a transecção medular, garantindo parcial sensibilidade e motricidade. Vale lembrar que o tipo de lesão está diretamente relacionado à capacidade sensório-motora residual e à função sexual em diferentes níveis.

Outra forma mais específica de classificação da lesão medular é quanto à localização: lesões na região cervical ou pescoço (C1-C7), têm como consequências a tetraplegia quando a lesão é completa e tetraparesia, na lesão incompleta. Lesões na região tóraco-lombar ou tronco (T1 – S5), têm como consequências a paraplegia na lesão completa e a paraparesia na lesão incompleta.

Existe uma forma específica de cada lesado medular reagir aos estímulos sexuais. O lesado medular é um ser sensível, que tem desejos e que pode viver com plenitude todas as etapas da relação sexual. A lesão raqui-medular altera a resposta sexual, sem, no entanto impedir uma vivência sexual plena. A pessoa com lesão percebe que sua sexualidade está diferente desde a fase hospitalar: a sensibilidade está alterada, podem ocorrer no homem, ereções sem excitação sexual ou em outras situações, desejo e excitação sexual sem ereção; na mulher a mesma insensibilidade é vivida com surpresa, a pouca lubrificação vaginal, a falta de menstruação nos primeiros meses após a lesão.
Todas estas percepções somadas à falta de orientação sexual levam os lesados medulares a uma encruzilhada: ou evitam o contato sexual ou desenvolvem formas pessoais de lidar com a sexualidade, utilizando procedimentos duvidosos, conselhos de outras pessoas com deficiências que nem sempre funcionam para seu caso e dessa forma acabam se expondo a riscos desnecessários.

A vivência da insensibilidade de partes do corpo, muitas vezes até dos próprios órgãos sexuais e de áreas antes consideradas erógenas, é extremamente dolorosa. Como imaginar uma vivência sexual satisfatória em uma pessoa que tem sérios comprometimentos sensoriais? A sensibilidade é o verdadeiro paraíso perdido. Encontrar a dor e o prazer, o movimento e a vida em partes do corpo, que aparentemente estão inertes? Esse é o grande desafio.

Os homens com lesão medular podem apresentar disfunções sexuais eretivas e ejaculatórias, dependendo do tipo e da gravidade da lesão. As mulheres podem apresentar pouca lubrificação vaginal. Disfunções orgásticas são encontradas em ambos os sexos, sendo que a infertilidade é mais presente nos homens. Mas a falta de controle de fezes e urina é apontada como causadora de grande constrangimento, situação agravada nas mulheres, devido ao fato de não existir para elas um coletor externo de urina, como existe para os homens. A desinformarão sobre a sexualidade humana favorecem os preconceitos. Deste mal padecem muitos profissionais da área de saúde, o que mantém a estrutura rígida dos programas de reabilitação, com procedimentos paternalistas, pouco individualizados e desatualizados.

Na terapia sexual do lesado medular, é extremamente importante o terapeuta trabalhar embasado em um diagnóstico preciso, que determine em detalhes os aspectos da função sexual que foram alterados. As disfunções orgânicas devem ser tratadas do ponto de vista orgânico e as inadequações sexuais do ponto de vista da reabilitação integrativa, ou seja, favorecendo a harmonia nos níveis bio-psico-sóciais.

Quando vamos realizar uma terapia sexual em um paraplégico ou tetraplégico, não podemos perder de vista que a maior parte destes indivíduos adquiriu a deficiência física de forma súbita, ocasionando uma redução de sua atividade sexual. Porém antes da lesão medular, tinham um comportamento sexual, com gostos, preferências, formas e maneiras muito específicas, as quais devem ser conhecidas pelo terapeuta sexual.

Precisamos levar em consideração fatores como zonas consideradas erógenas pela pessoa, presença e forma de masturbação, hábitos sexuais, posições preferidas e principalmente os fatores subjetivos ligados ao grau de satisfação com a atividade sexual e uma exploração em torno das fantasias eróticas. Questionando itens como interesse, desempenho, conhecimentos sobre sexualidade, saberemos o quanto temos que investir na educação sexual. Antes de enfocarmos a terapia sexual, podemos também antecipar problemas que possam surgir no processo.

É extremamente difícil imaginar que alguém não tem sensibilidade em um braço ou uma perna. Mais difícil ainda é conceber que algumas pessoas com lesão da medula, não tenham sensibilidade do ânus, da uretra e da genitália externa e interna e que mesmo assim continuam tendo desejo sexual, apesar da incompreensão coletiva, bem como, capacidade de experimentar prazer sexual. Precisamos fazer algumas perguntas específicas para cada sexo. No homem perguntamos se ele tem observado a presença de ereções espontâneas (ereções reflexas) e como ocorreram. As ereções deste tipo não têm ligação direta com a excitação sexual, podem aparecer por estimulação proprioceptiva da uretra, por exemplo, quando a bexiga está cheia, ou por estimulação tátil, quando o órgão sexual recebe estimulação direta. Este tipo de ereção reflexa é comum em paraplégicos e tetraplégicos espásticos, aqueles que têm movimentos involuntários de braços ou de pernas.

Na mulher pergunta-se sobre o retorno da menstruação, se tem lubrificação vaginal frente à excitação sexual, sensação de orgasmo e informações sobre contraceptivos. Incluem-se ainda dados sobre experiências sexuais anteriores à lesão, doenças venéreas, interesse e frequência de atividades sexuais, áreas do corpo mais sensíveis, desejo de ter filhos e existência de parceria sexual habitual.

Todo lesado medular necessita primar pelos cuidados de higiene: este aspecto tão óbvio, às vezes não é seguido, levando a problemas de descontrole esfincteriano na hora do ato sexual. No trabalho de reintegração da sexualidade, o terapeuta sexual precisa frisar este item, já que a pessoa nem sempre está preparada para lidar com estes possíveis transtornos.

Encontramos muitas mulheres com lesão medular, que têm atividade sexual após a lesão sem preocupação com os métodos anticonceptivos, pois também não foram informadas que continuam férteis. Ocorre também que poucas sabem que a lesão pode afetar o mecanismo excitatório, em alguns casos, diminuindo a lubrificação vaginal e em outros afetando a ereção uterina. Estas mulheres estão no mínimo se expondo ao risco de se machucarem na relação sexual, ou até de terem uma gravidez não programada.

Algumas lesadas se referem à utilização de vibradores, para favorecer o mecanismo reflexo da ereção uterina e a utilização de lubrificantes vaginais, para evitar a irritação da parede vaginal durante o coito. O desejo de ter filhos, após a lesão medular é muito frequente. Sabemos que a capacidade reprodutiva feminina está conservada; logo se a gravidez não for desejada, deverão utilizar-se de métodos anticonceptivos e a gravidez e o parto necessitam melhor acompanhamento médico. Porém, no homem, a fertilidade está frequentemente alterada devido à ausência de ejaculação e às alterações na qualidade do esperma. Poucos lesados medulares sabem que existem formas de tratar as disfunções ejaculatórias e que estas, não são um empecilho intransponível, para aqueles que pretendam ter filhos.

Uma vivência sexual saudável de uma pessoa deficiente física depende também do grau de equilíbrio psicológico, que pode ser avaliado pelo autoconhecimento e aceitação corporal, pela capacidade de amar e ser amado, pela flexibilidade interna para assimilar frustrações e a condição de buscar alternativas na obtenção de prazer, pelo grau de motivação e desejo e principalmente pela baixa ansiedade em relação ao sexo. Todos estes fatores devem ser mobilizados em uma terapia sexual. O que a pessoa com deficiência física mais necessita é clareza de ideias para que possa tomar ele mesmo as decisões sobre o procedimento que mais lhe convém. Hoje, problemas de disfunção eretiva de lesados medulares são facilmente sanados, porém o sentimento psíquico de impotência e inadequação demanda questões mais amplas, ligadas ao resgate da identidade pessoal, muitas vezes necessitando de psicoterapia reconstrutiva.

O terapeuta sexual que trabalha com pessoas com deficiências é, em essência, um alquimista, está sempre em busca da transformação, da evolução interna de seus clientes. A integração sexual em um processo crescente irá influenciar a família, os conhecidos e enfim toda a sociedade.
Fonte:  Revista Nacional de Reabilitação – Reação nº 86.
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