31/10/2013

Educação sexual - Discussão polêmica e necessária

Por Isabelle Lindote
Em 2008, o nascimento de Valentina, um bebê, fruto do amor entre Maria Gabriela Damate, com Síndrome de Down, e Fabio Marcheti, que possui atraso mental, causou polêmica e foi manchete de jornais e revistas de todo o país. A gravidez não-planejada e descoberta no sexto mês de gestação levantou uma polêmica: a falta de orientação sexual para deficientes intelectuais. Não há problema algum no nascimento de filhos entre esses casais, porém a falta de acompanhamento pode gerar outros problemas, além de gestações indesejadas. Sem informação, essas pessoas ficam expostas a doenças venéreas e podem até se tornar alvo de violência durante o ato. Por isso, a prevenção feita de maneira saudável serve como uma proteção. O deficiente precisa aprender os limites que precisam ser respeitados nas relações. A negligência, a falta de informação e a discriminação são alguns dos fatores que fazem o assunto ser tratado com resistência.
A Associação para Valorização e Promoção de Excepcionais (AVAPE) criou, há um ano, o "Grupo de Sexualidade" para o atendimento e orientação de pessoas com deficiência intelectual. Dezoito pessoas, homens e mulheres, na faixa dos 18 aos 30 anos de idade, se encontram uma vez por semana, sob a supervisão de Denise Teixeira, psicóloga especialista em sexualidade. "Criamos esse grupo por sentir a necessidade de orientação. É comum termos casos de abuso ou práticas sexuais sem os cuidados necessários como o uso do preservativo", explica. Uma vez por mês os pais se reúnem com a psicóloga para abordar, além da sexualidade dos filhos, questões como casamento. Uma pesquisa realizada pela AVAPE com 145 pais de pessoas com deficiência intelectual constatou que 70% deles não orientam os filhos sobre sexualidade.
Aproximação da realidade
De acordo com Denise, as pessoas com deficiência intelectual são facilmente manipuladas, o que as torna suscetíveis a abusos sexuais e, por outro lado, questões como o prazer e experimentar o "novo" também são comuns e atrativos para eles. Dinâmicas de uso da música, objetos, figuras ilustrativas e técnicas de expressão corporal auxiliam na descoberta e no entendimento do próprio corpo dos participantes do grupo. Bonecos e objetos de silicone ajudam na explicação de assuntos ligados diretamente ao ato sexual e suas consequências.
Como qualquer outro indivíduo, eles também tem necessidade de expressar seus sentimentos de modo próprio.
Por isso, a repressão da sexualidade, atitude que muitos pais tomam para tentar proteger seus filhos, pode alterar seu equilíbrio interno e seu desenvolvimento psíquico. Logo, a sexualidade bem encaminhada melhora o desenvolvimento afetivo, facilita a capacidade de se relacionar, aumenta a autoestima e ajuda o deficiente a sentir- se mais integrado à sociedade.
O jovem Deleon de Oliveira, de 22 anos, foi incluído no programa a pedido de sua mãe. Vera Lúcia dos Reis de repente se deparou com uma realidade que ela nem imaginava que pudesse existir: o filho com deficiência intelectual não só tinha uma namorada, como andava com camisinha na carteira e já tinha tido relação sexual. "Não imaginei que ele sabia o que era sexo e como se fazia", conta. A psicóloga diz que Vera fez o correto: buscou orientação para ela e para o filho, em vez de negar a realidade.
Educação
Uma pesquisa inédita do Ministério da Saúde, divulgada em novembro de 2008 e realizada com 2.238 pacientes, em 11 hospitais psiquiátricos e 15 Centros de Apoio Psicossocial (CAPS), revelou que 0,8% dos deficientes intelectuais são portadores do vírus HIV. Entre a população em geral, o índice é de 0,61%. Segundo a coordenadora do Programa Nacional de DST e Aids, Mariângela Simão, este grupo de pacientes está vulnerável às doenças sexualmente transmissíveis porque recebem menos atenção. O levantamento mostrou que 88% dessas pessoas já mantiveram relações sexuais, 61% fizeram sexo nos últimos seis meses, 16% disseram ter tido mais de um parceiro nos últimos seis meses e apenas 7% afirmaram ter usado preservativos durante o sexo. "Conhecer a realidade do HIV e de outras doenças sexualmente transmissíveis nessa população é o primeiro passo para construir ações que enfrentem o problema", afirma Mariângela.
O Instituto Kaplan oferece cursos de capacitação para educadores em diferentes temas, incluindo a sexualidade da pessoa com deficiência intelectual. Ministrados de forma lúdica e priorizando jogos e dinâmicas como meio de informação, os cursos permitem que o professor aprenda ferramentas de como trabalhar o assunto com seus alunos especiais. Há também outros lugares nos quais pessoas com deficiência podem ser orientadas, como no caso do Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES), no Rio de Janeiro. O instituto possue diversas formas de orientar, desde ministrar cursos profissionalizantes até palestras sobre sexo e prevenção de doenças. Procurar informações em centros de apoio à pessoa com deficiência, como associações e institutos regionais, é uma forma de mostrar que a sexualidade pode e deve ser orientada dentro e fora de casa.
Violência dentro e fora de casa
Dentro do grupo de sexualidade da AVAPE, das 18 pessoas, oito admitiram já ter sofrido abuso sexual. Na maioria dos casos, a violência é cometida por pessoas próximas das vítimas, como vizinhos, familiares ou amigos de parentes. Os violentadores abusam da falta de malícia e da inocência das pessoas com deficiência intelectual, que não conseguem se defender do assédio. Destes casos dentro do grupo, nenhum chegou à polícia e os criminosos ficaram impunes. Há registros nos depoimentos dos entrevistados de casos de maus tratos físicos, exploração, negligência e abandono. No entanto, durante esse ano de atividades, a psicóloga já ouviu dos participantes relatos positivos em decorrência desse trabalho. Caso de uma menina abordada na rua por um homem que a convidou para fazer sexo com ele. "Houve a recusa por parte dela, que imediatamente nos relatou o ocorrido, afirmando que sabia as consequências daquele convite", relata Denise.
Desmistificando as crenças
Débora Gejer, médica pediatra especialista em adolescentes e presidente da Associação para o Desenvolvimento Integral do Down (ADID), comentou sobre as principais crenças comuns quando se trata da sexualidade de pessoas com deficiência.
Deficientes não são sexualmente ativos.
Embora alguns adolescentes possam ser menos aptos que seus pares para serem sexualmente ativos, a crença é infundada, pois não se deve assumir que a condição de deficiência, por si só, preveja o comportamento sexual.
As aspirações sociais e sexuais de deficientes são diferentes dos seus pares.
Apesar do isolamento social que muitos deficientes vivenciam, estudos demonstram que estes jovens gostariam de ter relações sexuais, de casar e de ter filhos. Na verdade, o que ocorre é que essas pessoas têm menos oportunidades de explorar alguma relação com seus semelhantes, o que dificulta o alcance de suas aspirações.
SERVIÇOS
 
Sites que explicam mais sobre o tema
Como falar de sexo com filhos deficientes - www.acessa.com/direitoshumanos/arquivo/materias/2007/03/05-sexualidade/
Site oficial sobre Aids e sexualidade - www.aids.gov.br
Núcleo de Informação à Pessoa com Deficiência - www.nppd.ms.gov.br
A Sexualidade da pessoa com deficiência física - www.entreamigos.com.br
Questões sobre a Aids e deficiências - www.saberviver.org.br
Sexualidade da pessoa com deficiência - http://deficiencia.no.comunidades.net
Livros que ajudam a entender o assunto
  • Sexualidade e Deficiência: Rompendo o silêncio - Ana Rita de Paula e Penha Lopes Editora Expressão e Arte
  • Revolução Sexual sobre Rodas Conquistando o Afeto e a Autonomia - Fabiano Puhlmann Editora O Nome da Rosa
  • Reabilitação Sexual do Deficiente - Christiane Fürll-riede, Ralph Hausmann e Wolfgang Schneider Editora Revinter
  • Sexualidade de Cegos - Maria Alves de Toledo Bruns Editora Átomo
Locais onde buscar orientação:
  • Instituto Beneficente Nosso Lar (11) 2272-5266
  • Instituto Kaplan - Centro de Estudos da Sexualidade Humana, com serviço gratuito de orientação sexual pelo 0800-552533, das 9 às 20 horas, de segunda à sexta-feira - www.sosex.org.br
  • Sociedade Brasileira de Estudos em Sexualidade Humana (21) 2494-1087/2493-9657 - www.sbrash.org.br

Fotos: Shutterstock
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