22/08/2013

Formando campeões - A ascendência da esgrima em cadeira de rodas no Brasil


O esporte paralímpico brasileiro evoluiu, ganhou reconhecimento e se tornou muito mais do que um instrumento de transformação e inclusão. Hoje somos uma verdadeira potência mundial no atletismo, bocha, futebol e, principalmente, natação. Mas, não para por aí. Outras modalidades, como a esgrima em cadeira de rodas, que conquistou uma das 21 medalhas de ouro na última edição dos Jogos Paralímpicos de Londres, com Jovane Guissone (foto), está sendo muito bem representada e cresce cada vez mais no cenário nacional e internacional.

Considerada uma modalidade nova no País, a esgrima em cadeira de rodas tem ganhado maior evidência de dois anos para cá, especialmente pelas recentes conquistas nos principais torneios do mundo. Além de muita vontade, os atletas com deficiência locomotora necessitam de capacidade de adaptação, criatividade, velocidade, reflexos apurados, astúcia e paciência para que, com a utilização de uma arma (podendo ser florete, espada ou sabre, depende da categoria), consigam tocar seus adversários.

Os equipamentos necessários e obrigatórios são a máscara, a jaqueta e as luvas protetoras, as quais têm sensores que indicam quando um atleta é tocado. Quando isso acontece, uma luz - verde ou vermelha - se acende, representando a conquista do ponto por parte de um dos competidores. Porém, se a luz que acender for de cor branca, significa que o toque foi inválido.

CATEGORIAS

Dependendo da categoria a ser disputada, de acordo com a arma - o que modifica os critérios de pontuação - exige-se a utilização de outros equipamentos. Para os combates de florete, em que o objetivo é tocar o tronco do oponente com a ponta da arma, utiliza-se uma proteção para as rodas da cadeira. Nos duelos de espada, em que os competidores almejam tocar o oponente em qualquer região acima dos quadris, é usada uma cobertura metálica para proteger tanto as pernas quanto a cadeira. Por fim, o sabre objetiva a mesma área de pontuação da espada, sendo que o esgrimista poderá atingir o adversário com a ponta e com a lâmina, não necessitando utilizar proteções extras.


Na disputa individual, os primeiros confrontos duram no máximo quatro minutos, sendo que o vencedor é quem marca cinco pontos até o fim do combate. Já as etapas seguintes têm três tempos de três minutos cada, com intervalos de um minuto. Ganha o esgrimista que fizer 15 pontos ou o que tiver a maior pontuação ao final do combate. Caso haja empate, há prorrogações de um minuto até que um dos atletas atinja o outro, numa espécie de "morte-súbita".

Quando as disputas são por equipe, vence o time que marcar 45 pontos ao final dos combates. As equipes devem ter três competidores, sendo obrigatória a presença de um atleta da classe B. Em caso de igualdade no placar, valem os mesmos critérios de desempate dos duelos individuais para se apontar um vencedor.

ADAPTAÇÃO


As principais diferenças entre a esgrima paralímpica para a olímpica estão nas medidas da pista de competição, com 4 metros de comprimento por 1,5 metros de largura, e na mobilidade dos atletas, que têm suas cadeiras fixadas ao solo. Assim, torna-se proibido que qualquer um dos competidores se mexa, podendo haver a interrupção do combate caso isso aconteça.


A SUPERAÇÃO DE UM CAMPEÃO


A história de Jovane Guissone na esgrima em cadeira de rodas deu-se após um triste episódio em sua vida. Em novembro de 2004, ao reagir a um assalto, o gaúcho, na época com 24 anos, acabou levando um tiro que perfurou seu braço, pulmão e atingiu a medula na região torácica, tornando-o paraplégico. Foi quando enfrentou a maior dificuldade que já lhe apareceu, pois tanto ele quanto sua família não sabiam como lidar com a situação.


Guissone passou quase um ano em depressão e tentou reagir ao processo de recuperação. Mas foi nesse período que conheceu Queli, sua atual mulher, que tanto lhe apoiou e incentivou. As coisas começavam a mudar de maneira positiva e, aos poucos, foi se descobrindo, conhecendo a esgrima em cadeira de rodas somente em 2008. "Eu sequer conhecia a modalidade antes de sofrer o acidente. Mas Fábio Damasceno, meu atual padrinho de casamento e que também é padrinho do meu filho, me apresentou a esgrima e, aos poucos, comecei a praticar", disse.

Além de muita vontade, os atletas necessitam de capacidade de adaptação, criatividade, velocidade e reflexos apurados

O esporte, então, foi adotado em sua vida e uma jornada um tanto quanto iluminada começava a ser escrita. Porém, foram muitas as dificuldades até tornar- se um competidor de alto nível. "Nossa, não foi nada fácil. Eu tinha que pegar três ônibus e um trem para ir treinar e fazer o mesmo para voltar pra casa. Isso durante quatro anos e independente se estava frio, calor, chovendo ou fazendo sol", contou Guissone.

Três anos depois, no Mundial de 2011 realizado em Montreal, Canadá, era conquistada a primeira medalha da esgrima paralímpica brasileira. Um bronze que marcava uma nova era para a modalidade no Brasil e uma carreira vitoriosa para Guissone. Ao todo, foram 53 medalhas na carreira e, entre elas, está o ouro conquistado na categoria B individual com espada nos Jogos Paralímpicos de Londres, em 2012. Conquista essa que tem um valor especial para Guissone. "Foi emocionante e inesquecível. Uma mistura de realização, surpresa e a certeza de missão cumprida. E dediquei ao meu filho que, na época, completava um aninho e eu estava em Londres."

O campeão indica a modalidade, mas sabe que não são todas as pessoas que optam por praticá-la. "É muito bom fazer o que se gosta e também ter reconhecimento por isso. Aconselho todo mundo a praticar a esgrima, que, mais do que um esporte, é um hobby. Mas, por ser individual, muitas pessoas não se encaixam, e a maioria acaba escolhendo esportes por equipe", lamentou.

Por fim, Jovane Guissone definiu sua superação após a paraplegia. "Acredito que superação seja redescobrir uma vida nova e fazer dela a maior oportunidade de todas. Não se deve olhar para traz e se lamentar, e sim procurar ser uma pessoa melhor, ajudando o próximo e nunca prejudicando ninguém para alcançar algo", encerrou o gaúcho de 33 anos, que tem o nome escrito na história do esporte paralímpico.

CALENDÁRIO

O próximo torneio a ser realizado pelo Comitê Paralímpico Brasileiro será o Campeonato Brasileiro de Esgrima em Cadeira de Rodas, que acontecerá entre os dias 12 e 15 de setembro, em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul.

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