06/05/2013

Tecnologia assistiva dos centros universitários ainda demora a chegar a quem precisa



O desenvolvimento de estudos para avaliar a viabilidade de implementação da versão de um ampliador de tela voltado, mas não restrito, para pessoas com baixa visão foi o primeiro trabalho na área de tecnologia assistiva, em 2003, do Grupo de Inteligência Aplicada (GIA), criado em 2002 na Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE) e homologado pelo Conselho Nacional e Tecnológico (CNPq). Até hoje, o ampliador é um de seus principais projetos.

Apoiado pelo Núcleo de Inovações Tecnológicas da universidade e pelo Programa de Educação Especial, o GIA reúne um conjunto de professores pesquisadores e alunos (em sua maioria estudantes do curso de Ciência da Computação), além de colaboradores externos como professores da rede pública de ensino, especializados em educação especial, médicos oftalmologistas e outros interessados.

Conta também com a participação efetiva de escolas públicas da região e outras instituições de pesquisa parceiras, entre elas, o CTI - Centro de Tecnologia da Informação Renato Archer do Ministério da Ciência e Tecnologia, de Campinas/SP. Movidos por demandas da comunidade, o grupo procurou uma solução que fosse, ao mesmo tempo, de fácil uso, mas, sobretudo acessível, especialmente, para pessoas de baixa renda, notadamente alunos de escolas públicas de periferia.

De sua versão original até agora, o software ganhou novos contornos, passou por várias modificações e ajustes, apresentando-se atualmente em diferentes formatos. O professor Jorge Bidarra, um dos integrantes do grupo, juntamente com os professores Marcio Seiji Oyamada e Clodis Boscarioli, explica algumas mudanças: "De ampliações de imagens e textos, que na versão original do ampliador somente era possível em parte da tela do computador, a solução evoluiu para ampliação em tela cheia. Além disso, foram agregados à ferramenta um leitor de tela, bem como a possibilidade de o usuário configurar o ambiente segundo as suas necessidades, seja em relação ao tipo de mouse (em cruz ou em ponteira) ou à definição do contraste que melhor se adapte às necessidades visuais de cada indivíduo".

O grupo considera que os resultados até agora são bastante animadores e que, por suas características e potencialidades, vêm chamando a atenção de pessoas e instituições interessadas (empresas e centros de pesquisa). "Ainda não tivemos a oportunidade de repassar as nossas soluções como produtos para as entidades. Dadas as nossas possibilidades, o que procuramos manter são alguns protótipos distribuídos nas escolas públicas com as quais trabalhamos", explica Bidarra.

Atualmente são três tipos de solução: um ampliador de tela para execução em desktop; um terminal de autoatendimento, do tipo caixas automáticos de bancos, ao qual foram agregados recursos de ampliação, leitura de tela e um mouse que vibra quando posicionado sobre áreas da tela que contenham informações importantes, tais como: ícones, links e outros, provendo assim feedback auditivo, visual e motor e, mais recentemente, uma versão móvel que conectada a um monitor, via USB, ou a uma TV digital com entrada HDMI, permite ao usuário projetar com recursos de ampliação e definição de contraste textos e imagens de revistas, jornais ou qualquer outro tipo de material impresso. Todas essas soluções têm sido apresentadas em diferentes fóruns técnicos e científicos, bem como em feiras, nacionais e internacionais.

Tudo que é desenvolvido tem com base a filosofia de software livre e uso de peças retiradas de máquinas/equipamentos colocados em desuso – lixo eletrônico, como os gabinetes de caça-níqueis que foram doados por uma das Comarcas da Justiça Criminal localizada na região, para fins de pesquisa e desenvolvimento de soluções sociais.

O software desenvolvido para a ampliação, denominado xLupa, apesar de se tratar de um software livre, teve a autoria protegida junto ao INPI, assim como o Terminal de Autoatendimento. A proteção intelectual da versão móvel ainda se encontra em trâmite na universidade.

A partir desses trabalhos, novas soluções voltadas para pessoas com deficiência estão em fase de estudos, pesquisas e desenvolvimento com grupos de professores e alunos, também membros do GIA e do PETComp (Programa de Educação Tutorial em Ciência da Computação), que estão desenvolvendo jogo educacional inclusivo para crianças surdas. Outra pesquisa, mas ainda bastante incipiente, voltada para o estudo e desenvolvimento de sistemas de tradução/interpretação automática de Português para Libras, começa a ser delineada. "Em todo o mundo, não sendo diferente no Brasil, o envolvimento de centros de pesquisas, como as universidades, tem sido de fundamental importância e absolutamente necessário para o desenvolvimento de tecnologias. Mas, embora não seja função das universidades comercializar os resultados de suas pesquisas, especialmente aquelas que podem se transformar em produtos/soluções técnicas inovadoras (cuja competência caberia às empresas), o que ainda nos difere substancialmente (instituições brasileiras de pesquisas, de uma forma geral) dos países desenvolvidos é a falta de relacionamento, facilidades e incentivos governamentais que propiciem o contato entre elas", lamenta o professor.

Para ele, o que tem acontecido no Brasil, salvas raríssimas exceções, é que os trabalhos produzidos na academia acabam se transformando em soluções de prateleira, ou seja, não chegam ao público que poderia ser grandemente beneficiado. "Felizmente, temos percebido que, mais recentemente, o governo federal vem demonstrando sensibilidade para com o tema, com a publicação e revisões nas leis e decretos que tratam do assunto, com mecanismos que buscam favorecer a transferência do conhecimento tecnológico adquirido nas universidades para as empresas. Embora ainda estejamos muito longe do que acontece com os países desenvolvidos, acreditamos que com o interesse dos governos, das instituições (centros de pesquisa, universidades e empresas) e, porque não, de toda a sociedade, estamos caminhando para uma nova perspectiva", encerra Bidarra.

Proxima Anterior Inicio

0 comentários:

Postar um comentário

Seu Comentário é muito importante para nós.